Preço dos ativos é fator de atração

Por Alfonsin

Colheita de cana no interior paulista; falta de oferta de matéria-prima pode limitar valor dos ativos, dizem analistas

O interesse de novos investidores em usinas sucroalcooleiras do país pode levar a um aumento nas operações de fusão e aquisição no setor neste ano em relação a 2016, mas a falta de oferta de cana-de-açúcar, decorrente dos baixos investimentos nas lavouras nos últimos anos, pode limitar o valor das transações.

“Há uns cinco ou seis negócios para sair neste ano”, avalia Luis Felipe Trindade, diretor de finanças corporativas da consultoria Czarnikow.

A persistência das dificuldades financeiras de algumas usinas tornou seus ativos “baratos” para potenciais interessados, principalmente diante da falta de investimentos para expandir a capacidade de produção no mundo, em um mercado em que a demanda cresce a um ritmo constante de 1% a 2% todo ano.

No ano passado, o valor dos ativos negociados foi bem menor do que no “boom” do início da década. Estudo realizado a pedido do Valor pela consultoria EXM Partners indica que o valor das aquisições fechadas em 2016 por tonelada de cana que a usina é capaz de moer ficou entre R$ 62,70 e R$ 229,40, ou US$ 19,10 a US$ 67,90 (ver gráfico acima).

Nada comparado aos níveis de 2010, segundo Ângelo Guera Netto, sócio da EXM. “Aquela euforia fez com que negócios fossem fechados a US$ 116 por tonelada. Por mais que se recuperem negócios agora, não voltaremos ao mesmo patamar”, diz. Ele avalia que o valor dos próximos negócios pode ir a US$ 75 por tonelada de capacidade instalada. Segundo Netto, os fundos, que têm visão de curto prazo, estão avaliando aquisições “com um prazo de saída de uns três anos, a um preço de US$ 85 a tonelada.

Há no mercado, contudo, quem acredite que os negócios não deverão superar os US$ 60 a tonelada, já que muitas usinas à procura de compradores – mesmo com um bom potencial de moagem – não têm oferta de cana suficiente para garantir níveis “satisfatórios” de produção de açúcar e etanol. Além disso, as incertezas políticas e a falta de crédito “devem manter os preços dos ativos baixos”, avalia Netto.

Trindade, da Czarnikow, diz que há uma pressão crescente para que negócios com usinas com alto passivo financeiro sejam feitos com deságio na dívida. “A transação típica é assumir a dívida, o que pode incorrer em ‘haircut’, enquanto o capital é mais direcionado ao próprio negócio, em linhas de capital de giro”.

A maior parte dos negócios no ano passado ocorreu por meio de leilões judiciais ou pela decisão da Petrobras de sair do segmento para focar em petróleo.

Encaixam-se no primeiro caso as aquisições das usinas da Infinity Bioenergia pelas gestoras de fundos americanas Amerra e Carval e a compra de uma unidade da Unialco pela trading suíça Glencore. No caso das vendas feitas pela Petrobras, houve a alienação da participação na Nova Fronteira à São Martinho e da participação na Guarani à francesa Tereos.

O único negócio que fugiu a essa tônica foi a saída da americana ADM da usina em Limeira do Oeste (MG). A unidade foi vendida para a JFLim Participações, de um fundo gerido pela BRL Trust Investmentos, a um valor não revelado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *