Plano de recuperação da Eternit inclui créditos de R$ 250 milhões

Por Valor Econômico

A Eternit – conhecida pelas telhas de amianto e pela extração do mineral crisotila – protocolou, na noite de segunda-feira, plano de recuperação judicial que abrange créditos de cerca de R$ 250 milhões e mais de 2 mil credores. Segundo o presidente da companhia, Luís Augusto Barbosa informou ao Valor, há expectativa que a aprovação ocorra rapidamente. “Fizemos um plano bem realista.

Tentamos atender, da melhor forma possível, às expectativas dos credores”, afirma o executivo, que espera que a companhia saia da recuperação em dois anos contados da homologação do plano. Em 20 de março, a Eternit recorreu ao ajuizamento para fazer frente ao descasamento de caixa e passivos. O pedido de recuperação abrange a companhia, a Sama Minerações Associadas, a Tégula Soluções para Telhados, a Eternit da Amazônia Indústria de Fibrocimento, a Precon Goiás Industrial, a Prel Empreendimentos e a Companhia Sulamericana de Cerâmica (CSC).

A Eternit, representada, pelo escritório Galdino Coelho Mendes Advogados, optou pelo formato de litoconsórcio ativounitário – plano único para as recuperandas. O quadro geral de credores do plano abrange R$ 578,7 mil para a Classe I, R$ 36,2 milhões para a Classe II, R$ 174,2 milhões e US$ 7,971 milhões para a Classe III e R$ 4,46 milhões para a Classe IV. O presidente ressalta que o plano só prevê possibilidade de desconto para pagamento da classe III, a de credores quirografários (sem garantia). “Há uma opção sem corte, com prazo de pagamento mais longo, e outra com desconto e prazo menor para essa classe”, diz o executivo.

Na classe II (com garantia real), há apenas um credor, do segmento financeiro. Esse credor financiou a fábrica de polipropileno (matéria-prima sintética para telhas de fibrocimento) em Manaus. Parte dos créditos está denominada em dólar por se referir a financiamento para equipamentos importados. O pagamento para a pagamento da classe I (trabalhista) é de 12 meses. As dívidas com a classe IV (de micro e pequenas empresas), serão pagas em até 18 meses.

O plano prevê concessão de prazos e condições de pagamento especiais para credores concursais, ajustes operacionais, aumento de capital, emissão de debêntures, eventual obtenção de financiamento em condições especiais e venda de ativos. A companhia vai revisar custos para adequá-los às necessidades atuais e implementar ações para captar recursos financeiros. Segundo Barbosa, depois dos cortes de pessoal realizados no ano passado, não há nenhum ajuste significativo a ser feito, e algumas unidades estão contratando funcionários.

O valor do aumento de capital dependerá das necessidades de investimento da companhia. “Nossa primeira preocupação é aprovar o plano. Sem isso, dificilmente, vamos abrir novas linhas de crédito”, diz o presidente. Os recursos da capitalização serão destinados a investimentos em expansão, diversificação e modernização das atividades, além de capital de giro.

Os atuais acionistas terão direito de subscrição dos papéis. O que não for subscrito será direcionado para credores trabalhistas que tiverem interesse em converter dívida em ações. Segundo o presidente da Eternit, há bancos não credores da companhia dispostos a oferecer linhas de financiamento assim que o plano for aprovado. Proposta só prevê possibilidade de desconto para pagamento de credores sem garantia Também como parte das estratégias para execução do plano, a Eternit prevê vender dois imóveis, um no Ceará e outro em Goiás, no prazo de 18 meses contado a partir da data de homologação judicial. Se necessário, a Eternit poderá comercializar outros ativos. A venda já prevista ocorrerá por meio de leilão, e os lances mínimos serão de R$ 120 milhões e R$ 35 milhões, respectivamente. Os recursos da venda do primeiro imóvel irão para capital de giro (R$ 18 milhões), pagamento à Colcerámica e para dar liquidez à execução do plano.

O que for arrecadado com a venda do segundo imóvel irá para as necessidades previstas no plano. No fim de abril, a Eternit comprou a fatia que a Colcerámica detinha na CSC. A Eternit, que até então possuía 60% da CSC, ficou com a totalidade da empresa. A necessidade de recuperação judicial resultou do banimento do amianto no Brasil, da queda da demanda e dos preços do mineral no mercado internacional e da crise da construção civil no país. Pesaram também os resultados da CSC.

O pedido de recuperação suscitou dúvidas se poderia ter sido evitado caso a Eternit tivesse se diversificado mais e reduzido, de fato, a dependência do amianto. A Eternit está confiante na melhora dos seus resultados no segundo semestre, de acordo com Barbosa. Há expectativa de melhora dos resultados da controlada Sama Minerações Associadas, das vendas de telhas de fibrocimento e da unidade de louças sanitárias. “Para o negócio de mineração, as vendas são melhores no segundo semestre”, diz Barbosa.

Além disso, ressalta o executivo, o câmbio atual favorece as exportações de amianto pela Sama. Segundo o executivo, começa a haver melhora na demanda por fibrocimento, e as mudanças no portfólio de louças sanitárias já se refletem nas vendas do segmento. No primeiro trimestre, a Eternit teve prejuízo de R$ 11,138 milhões, valor 3,71 vezes maior do que o do mesmo período de 2017.

A receita líquida caiu 22,9%, para R$ 129,227 milhões. De acordo com Barbosa, os resultados foram impactados pela instabilidade resultante da substituição do uso de amianto por fibras sintéticas na produção de telhas de fibrocimento. No segundo trimestre, esse processo foi estabilizado, mas o desempenho da Eternit teve os impactos negativos da greve dos caminhoneiros.

 

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