Odebrecht ‘queima’ Braskem em acordo

Por Valor Econômico

O acordo entre a Odebrecht e os cinco maiores bancos do Brasil, para conseguir até R$ 2,6 bilhões em novas linhas de crédito ao longo deste ano e do próximo, deve consumir integralmente o espaço do grupo para manejar suas dívidas em cima da garantia de seu principal ativo, a Braskem. Sua fatia na petroquímica equivale a R$ 14,5 bilhões, pela cotação em bolsa. As negociações, segundo fontes envolvidas, podem ser concluídas nos próximos dias.

Para novos financiamentos, o grupo dependerá não só da boa vontade dos bancos mas também de outra valorização significativa de Braskem na B3. Hoje, a companhia vale R$ 38,6 bilhões. Quando a Odebrecht passou a usar o controle da petroquímica para se alavancar em busca de tempo para sair da crise pós-Operação Lava-Jato, a empresa valia no pregão R$ 13 bilhões – desde então, triplicou. Essa é a terceira rodada da Odebrecht em busca de dinheiro novo em cima desse ativo.

A participação de controle na Braskem – 50,1% das ações ordinárias e 38,3% do capital total- cobre atualmente pouco menos de R$ 7 bilhões em compromissos. Em favor dos bancos, as ações ordinárias estão penhoradas e as preferenciais, cedidas fiduciariamente (incluindo os dividendos).

Quando começou a usar o controle da Braskem para garantia aos bancos, a participação valia R$ 5 bilhões

O diálogo com os bancos inclui não apenas a liberação do dinheiro novo, mas também, o aumento do total das dívidas cobertas por essa garantia, como contrapartida. Assim, além das dívidas atuais já garantidas pelas ações mais o dinheiro novo, entrariam debaixo desse cobertor linhas antigas.

O consenso entre os bancos tem se mostrado difícil e, por isso, com alterações constantes na estrutura negociada. Mas, pelas conversas atuais, é possível que o total de dívidas garantidas com as ações da Braskem fique entre R$ 11 bilhões e R$ 13 bilhões – ou seja, quase todo o valor de mercado da participação na petroquímica.

Por causa disso, há quem acredite que a Odebrecht consumiu toda sua capacidade de alavancagem com essa negociação com os bancos e que a revitalização da Odebrecht Engenharia e Construção (OEC) é urgente. A avaliação é que, a cada “encolhimento” dos negócios, o grupo entregou mais de seu maior e melhor ativo aos credores – Itaú, Bradesco, Banco do Brasil, BNDES e Santander.

Pela estrutura em avaliação, Itaú e Bradesco concederão as novas linhas. O grupo está numa corrida contra o tempo devido ao vencimento, em 25 de abril, de R$ 500 milhões em bônus da OEC. Na próxima semana, completa o prazo de 30 dias após o não pagamento a partir do qual os credores desses papéis podem declarar a OEC inadimplente.

A situação na construtora já contamina outras empresas do grupo. Conforme fontes ligadas às conversas, os bancos estão segurando as linhas da Atvos (ex- Agroindustrial), que voltou a enfrentar problemas de liquidez.

Para conceder os recursos (que devem ser liberados em duas etapas, conforme o cumprimento de condições de evolução dos negócios), Itaú e Bradesco querem conquistar prioridade sobre as garantias, as ações da Braskem. Por isso, as demais instituições, Santander, BB e BNDES, precisam dar aval.

Esse tem sido o grande entrave. A maior dificuldade, desde o começo das conversas, vem da parte do BB e do BNDES. A situação é de tal forma tensa que o clima entre as instituições ficou ruim. É para essa liberação que os bancos estão exigindo colocar sob o cobertor da Braskem dívidas antigas.

O Valor apurou que a operação com os bancos divide até a cúpula da Odebrecht. Parte preferia que o grupo tivesse buscado reestruturar privadamente as grandes dívidas – com bancos e com os detentores de bônus da OEC. Mas prevaleceu a visão de que é primordial preservar a relação com credores.

Em julho de 2016, a Odebrecht obteve R$ 4 bilhões em linhas com o controle de Braskem, que na época valia R$ 5 bilhões. Em maio de 2017, quando o valor subiu para R$ 9 bilhões, o total garantido foi elevado a quase R$ 7 bilhões, após o grupo conseguir que os bancos aceitassem que o dinheiro da venda da Odebrecht Ambiental ficasse com a holding e não quitasse compromissos, como acordado antes.

Desde o julho de 2016, quando reestruturou a dívida da Agroindustrial, a Odebrecht tem o compromisso de usar o dinheiro obtido com o programa de venda de ativos para amortizar os compromissos da holding. Quem defende o acordo com os bancos neste momento, sem reestruturação mais ampla, argumenta que o grupo tem usado de forma responsável sua riqueza, na tentativa de reorganizar os negócios do grupo.

O maior desafio operacional é a construtora, cuja carteira de projetos encolheu drasticamente desde que a Operação Lava-Jato foi deflagrada – de US$ 28 bilhões, ao fim de 2015, para US$ 13,5 bilhões atuais. A companhia tem dívidas da ordem de US$ 3,3 bilhões em títulos internacionais garantidos pela holding. A aposta na revitalização deve-se ao prazo desses papéis: acima de 18 anos, na média.

Quando foram emitidos, a situação era oposta. A construtora, que não carecia de recursos, era a operação mais rentável e foi usada para permitir que holding expandisse outros negócios.

A avaliação dos mais otimistas é que a Odebrecht conseguirá, a partir de agora e em velocidade cada vez maior, recompor a carteira da OEC. Nos últimos meses, o grupo conquistou quase R$ 1 bilhão em projetos no Brasil. Além disso, a crença é que Braskem continuará mostrando valorização. A avaliação é que eventos importantes de governança da empresa podem promover um novo ciclo de alta.

Consultada, a Odebrecht afirmou que “continua em diálogo com os bancos de seu relacionamento, a fim de encontrar, com pragmatismo e comprometimento, soluções para suas questões financeiras” A companhia não quis comentar sobre o uso das ações da Braskem para cobertura de dívidas preexistentes. (Colaboraram Talita Moreira e Vinícius Pinheiro)

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