Obras de arte do Banco Santos rendem R$ 12 milhões em leilão

Saída dos jardins da casa do ex­-banqueiro Edemar Cid Ferreira, a escultura “Vestal Reclinada com Pássaro”, de Victor Brecheret (1894­-1955), já tem um novo dono. Depois de mais de uma dezena de lances, uma oferta de R$ 2,7 milhões arrematou a obra ontem no leilão da massa falida do Banco Santos, mais do que o dobro da proposta inicial de R$ 1,1 milhão. Brecheret foi um dos principais representantes da arte moderna no Brasil.

A morada da obra mais cara do pregão ainda é desconhecida. Em pé na platéia, Sueli Cravo fez o lance final, mas disse que estava apenas representando o verdadeiro comprador, que ditou a ela os lances por telefone. Sueli é esposa do leiloeiro Aloisio Cravo, que conduziu a venda do acervo do Banco Santos. Questionada pela reportagem sobre o comprador, ela disse que não poderia identificá-­lo. “É um cliente.” A escultura “Touro Zebu” de Brecheret também foi vendida no leilão, avaliada em R$ 340 mil, ante um valor mínimo de R$ 100 mil.

Apenas uma das 214 obras leiloadas ontem teve seu comprador publicamente anunciado. Tão logo Cravo bateu o martelo numa oferta final de R$ 770 mil, o leiloeiro divulgou que a “Tríade Trindade”, de Tunga (1952­-2016), foi arrematada pelos patronos da Pinacoteca do Estado de São Paulo. O lance foi quase o dobro dos R$ 400 mil do lance mínimo inicial.

Ao todo, o leilão arrematou R$ 11,87 milhões com a venda de 138 lotes, acima dos R$ 8 milhões para esta primeira etapa do leilão ­ uma segunda acontecerá apenas via internet no dia 29. Não é nada mal para o acervo em questão. “É um leilão de grandes nomes, mas, em geral, de obras medíocres”, afirmou João Carlos Lourenço, que faz a avaliação do acervo do Banco Santos há 12 anos para a massa falida. Lourenço cita como exemplo a falta de documentação de peças chinesas e o fato de a escultura em bronze “Anunciação”, da artista Maria Martins (1894-­1973), ser uma fundição póstuma, sem assinatura.

Vários compradores, porém, enxergaram em parte das obras um valor que superou em muitas vezes os lances mínimos estabelecidos. Uma escultura em ferro e sem nome do mineiro Amílcar de Castro (1920­-2002) começou a ser vendida por R$ 220 mil, mas teve como oferta final nada menos que R$ 1,55 milhão. Mal o leiloeiro Cravo anunciava o lance inicial da obra do artista concretista, as propostas vindas via internet já estavam em R$ 480 mil. A partir disso, vieram vários lances também de intermediários, que estavam com os verdadeiros ­ e sigilosos ­ compradores no celular, informando os lances.

Um óleo sobre tela de Antônio Manuel também começou valendo R$ 9 mil, mas terminou a série de lances comprado por R$ 220 mil. Nascido em Portugal em 1940, o artista plástico chegou ao Brasil em 1953 e mostrou em algumas de suas obras o repúdio ao regime militar.

Uma das obras vendidas por altas cifras, “Grande Fita Vertical Amarela”, de Franz Weissmann (1911­-2005), recebeu um lance de R$ 500 mil por um comprador via internet. O preço mínimo era de R$ 130 mil. O adquirente, no entanto, ainda não sabe se levará a escultura em metal de mais de dez metros de largura por seis metros de altura para casa. Cravo afirmou que uma possível doação anterior da obra poderia impedir sua venda.

Duas pinturas de Tomie Ohtake (1913­-2015) também foram bastante disputadas. A menor delas alcançou R$ 340 mil, com um preço mínimo de R$ 125 mil, enquanto a maior de 2m por 2m saiu por um pouco mais, a R$ 360 mil, partindo do mesmo lance mínimo. Dois bambolês de ferro já não interessaram tanto e foram arrematados pelo lance mínimo de R$ 180 mil.

Nelson Leirner (1932) e Djarina (1914­-1979) estão entre os demais artistas que tiveram obras avaliadas em várias vezes o lance inicial. Na parte de fotografia, a platéia contava com um interessado em especial. Em fase final de preparação para a abertura de um museu de fotografia em Fortaleza em março do ano que vem, o cearense Silvio Frota arrematou várias delas, de artistas como Robert Doisneau (1912-­1994) e Henri Cartier ­Bresson (1908­2004). “Até perdi a conta do que comprei, foi de 20 a 30, mas levei tudo o que queria”, disse ao Valor.

Os recursos levantados no leilão vão ajudar a instituição no pagamento de R$ 2 bilhões que ainda deve a seus credores. Controlado por Cid Ferreira, o Banco Santos teve sua falência decretada em 2005.

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