Por Valor Econômico

SÃO PAULO ­ O juiz Paulo Furtado, da 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Comarca de São Paulo, homologou na segunda-­feira o novo plano de recuperação judicial da companhia sucroalcooleira Infinity Bio­Energy, controlada pelo grupo Bertin. A empresa tem seis usinas e acumula um endividamento total de cerca de R$ 2 bilhões. O cálculo se baseia no câmbio de fevereiro, uma vez que aproximadamente metade da dívida é em moeda estrangeira.

O plano, desenvolvido pela consultoria EXM Partners e aprovado em assembleia em dia 29 de abril por credores que representavam mais de 80% dos valores devidos, prevê a alienação de quatro unidades para pagar parte dos credores. O valor deve abater quase toda a dívida da companhia. O plano de recuperação prevê ainda a reativação da produção nas outras duas unidades.

As usinas Usinavi, localizada em Naviraí (MS), e Ibirálcool, em Ibirapuã (BA), já estão sob controle de credores concursais (Bradesco, Santander, HSBC e fundos de investimento Carval e Amerra), com os quais a dívida da Infinity soma cerca de R$ 1 bilhão da dívida da Infinity.

Na terça-­feira, a Justiça autorizou a possibilidade de os credores leiloarem essas plantas. Se elas não forem vendidas, o valor que esses credores têm a receber será convertido em participação em ambas.

A unidade sul­-matogrossense tem capacidade de processamento de 3,4 milhões de toneladas de cana­de­açúcar por safra, enquanto a planta baiana tem capacidade de moagem de 1 milhão de toneladas.

O plano também prevê que as usinas Disa, localizada em Conceição da Barra (ES), e Alcana, localizada em Nanuque (MG), serão transferidas para os credores extra concursais e para o BNDES. Estão neste grupo os credores trabalhistas, que terão preferência para ter a dívida quitada, mas para os quais há limitação de abatimento de R$ 25 milhões do valor devido.

O grupo Infinity continuará com o controle das plantas Cridasa, localizada em Pedro Canário (ES), e Central Energética Paraíso (Cepar), de São Sebastião do Paraíso (MG), que serão responsáveis por gerar receitas para abater o restante da dívida, que é basicamente tributária. O endividamento da companhia com impostos é superior a R$ 400 milhões.

Essas duas usinas têm, juntas, capacidade de processamento de 2,7 milhões de toneladas de cana por safra e podem gerar mil empregos diretos.

Segundo Angelo Guerra Netto, sócio da consultoria EXM Partners, a permanência dessas duas unidades sob controle do grupo sucroalcooleiro é uma forma de garantir o cumprimento da lei de recuperação judicial, que prevê a continuidade da atividade empresarial para voltar a gerar receitas.

Caso existam credores que não queiram aderir ao plano, eles terão o direito de receber essas outras duas unidades. Porém, Netto diz que a expectativa é que totalidade do passivo seja quitado com alienação das quatro usinas, como previsto no plano.

A solução de vender parte dos bens da companhia sucroalcooleira foi proposta depois que o primeiro plano de recuperação judicial, ajuizado em 2009, não foi cumprido totalmente. Embora as principais premissas daquele plano, incluindo investimentos de novos acionistas, tenham ocorrido, o grupo Infinity não conseguiu cumprir o cronograma de pagamento das dívidas por causa do ciclo de queda dos preços de açúcar e etanol a partir de 2010.

“A Infinity vinha em um momento em que vários participantes e até credores não viam soluções que pudessem continuar com a operação e atender o interesse de cada uma das partes”, afirmou Netto. Segundo o consultor, a perspectiva dos credores até o ano passado era de que a companhia teria que entrar em falência.

Netto disse que a solução proposta foi possível por causa das “circunstâncias novas do setor”, em referência à tendência de recuperação dos preços do açúcar e do etanol observada já no ano passado, com a entrada da primeira safra global com déficit de oferta (2015/16).

Por Istoé

O grupo Infinity Bio-Energy, que chegou a faturar R$ 600 milhões na safra 2011/12 e ter seis usinas de etanol em operação, corre contra o relógio para garantir sua sobrevivência. Após chegar quase à falência no ano passado, os acionistas controladores da companhia começaram a estruturar um novo plano de recuperação com seus credores para retomar suas operações.

Fundada em 2006, com objetivo de competir de igual para igual com as gigantes do setor sucroalcooleiro, que, àquela época, viviam a euforia do ‘boom’ do consumo de etanol, a companhia não resistiu à crise e entrou em recuperação judicial em maio de 2009. Com uma dívida de cerca de R$ 1,5 bilhão (exceto tributária), o grupo foi minguando aos poucos e das seis unidades, somente uma segue em operação.

Em agosto do ano passado, após sucessivas renegociações com credores e risco de quebrar de vez, o acionista controlador do grupo, a Tinto Holding, que tem entre os seus sócios o empresário Natalino Bertin contratou a consultoria Exame Partners para fazer um novo rearranjo na companhia.

Angelo Guerra Netto, sócio da Exame Partners, consultoria de reestruturação de empresa, especializada em agronegócio, afirmou que está em curso um novo plano que, se aprovado, poderá fazer a companhia retomar, aos poucos, suas atividades ainda que em menor escala.

Guerra retomou as conversas com credores no segundo semestre, depois de o plano de recuperação judicial ter fracassado.

No dia 29 de abril, parte dos credores, que representavam 80% dos valores devidos, aprovou essa nova reestruturação. Mas para o plano seguir adiante, precisa da homologação do juiz responsável pela recuperação judicial da companhia, Paulo Furtado, da 2ª Vara do Estado de São Paulo, prevista para os próximos dias.

Uma vez aprovado pelo juiz, essa reorganização terá de ser submetida, em até 30 dias, ao aval dos credores aderentes, ou seja, os que deram recursos após o plano original de recuperação judicial (os bancos Bradesco, HSBC, BNDES, Santander e os fundos Amerra e Carval). Esses credores detêm a alienação fiduciária das seis usinas. Mas a ideia é que eles fiquem duas unidades Usinavi, do Mato Grosso do Sul, e Ibirálcool, no sul da Bahia.

Os atuais controladores ficariam com outras duas unidades – a Cridasa, no Espírito Santo; e Cepar, em Minas Gerais. As outras duas – Disa e Alcana -, ambas no Espírito Santo, para os demais credores, com preferência para quitar dívidas trabalhistas.

Retomada. Se homologado o plano, os atuais controladores tentarão viabilizar a retomada das operações das duas usinas sob gestão: Cridasa e Cepar. As outras duas unidades (Disa e Alcana) poderiam ser vendidas e, os recursos obtidos, seriam distribuídos aos credores na proporção da dívida de cada um, ou mantidas, se for o caso.

“Havia um problema grave, mas a persistência e abertura para o diálogo com os credores permitiram achar uma solução. Talvez não a ideal, mas a possível, que é melhor que a inércia”, diz Guerra.

Com uma capacidade de 9,4 milhões de toneladas considerando as seis unidades, hoje o grupo fatura cerca de R$ 10 milhões. Quando fundada, a companhia tinha fundos estrangeiros como acionistas. A holding Tinto entrou no negócio após a recuperação judicial.

Crise setorial – Desde a safra 2008/09, boa parte das usinas do setor enfrenta sérias dificuldades financeiras. Endividadas, muitas companhias mudaram de mãos e outras em recuperação judicial.

De acordo com Antonio de Padua Rodrigues, diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), cerca de 80 usinas estão paradas, de um total de 450 unidades. Dessas, cerca de 70 em recuperação judicial. “Muitas não têm condições de retomar a produção.”

O setor sucroalcooleiro, que registrou uma receita de R$ 87 bilhões na safra passada, a 2015/16, soma dívidas financeiras de cerca de R$ 100 bilhões.

A expectativa para o atual ciclo, 2016/17, é de recuperação dos preços do açúcar. A alta do dólar e a melhor competitividade do etanol em relação à gasolina deverão impulsionar parte do setor. Mas ainda não é suficiente para tirar boa parte dos grupos da profunda crise que abateu sobre essas companhias. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.