Por Valor Econômico

Navegando em águas turbulentas nos últimos anos e tendo pela frente um horizonte ainda nebuloso, cada vez mais usinas sucroalcooleiras do país, algumas bastante endividadas, começarão a receber nos próximos anos indenizações expressivas referentes a perdas do passado derivadas de uma fracassada política de controle de preços que vigorou no país nas décadas de 1970 e 1980.

Algumas companhias já receberam nos últimos oito anos indenizações após entrarem na Justiça, mas o leque de usinas deve crescer após decisão recente do Supremo Tribunal Federal (STF) em ação movida pela Copersucar – processo que envolve a maior indenização no setor nesse caso. Diante dessa vitória, muitos grupos, inclusive de capital aberto, começam a incorporar receitas futuras derivadas dessa decisão judicial em seus balanços. A decisão do STF estabeleceu que a Copersucar tem R$ 5,6 bilhões a receber parceladamente a partir deste ano – valor que será rateado entre as usinas que eram cooperadas em 1990.

O valor foi depositado em juízo e aguarda posição da União, cujo prazo para manifestação é semana que vem, segundo o advogado Hamilton Dias de Souza, que representa a cooperativa. Há mais um pleito da cooperativa, de R$ 12,8 bilhões, em discussão na Justiça. Para o advogado Gabriel Buscarini Leutewiler, do escritório Santos Neto, somadas outras ações que ainda podem surgir movidas pelas empresas que eram associadas à Copersucar, o valor a ser pago às usinas pode alcançar cerca de R$ 30 bilhões. Dias de Souza preferiu não fazer estimativa.

“Todas as empresas que tiveram prejuízos com o tabelamento do IAA estão reclamando seus direitos. Existe uma avalanche de ações na Justiça”, lembrou Leutewiler. “Como o STF reconheceu a legitimidade dos precatórios do IAA, estabeleceu-se inclusive um mercado para esses precatórios que atraiu a atenção de muitos bancos de investimentos”. Criado pelo presidente Getúlio Vargas em 1933, o Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA) definiu diretrizes para o segmento até 1990, quando foi extinto pelo governo de Fernando Collor de Mello em meio a acusações de incompetência, corrupção e muitas críticas do setor privado.

Conforme o advogado do Santos Neto, que representa algumas usinas associadas da Copersucar em processos em curso, os precatórios reconhecidos pela Justiça tendem a ser pagos em um período de três a sete anos. “Não são títulos públicos, mas [uma vez reconhecidos pela Justiça] têm pagamento garantido”. O montante exato dos precatórios garantidos pela Copersucar que deve virar caixa para as usinas deve ser menor que o valor a que têm direto.

Por ser cooperativa, a Copersucar questionou a Receita Federal para saber se precisará recolher impostos sobre esse recurso, mas ainda não obteve resposta. De qualquer forma, ao menos parcela desses precatórios é considerada pelas ex-cooperadas como receita provável.

Por Valor Econômico

As tradings que atuam no mercado brasileiro de soja podem estar acumulando um “passivo” bilionário enquanto perdura o embate jurídico em torno da nova tabela de preços mínimos de fretes para o transporte rodoviário de cargas no país.

Ocorre que o escoamento da produção da safra 2017/18, em grande parte destinada à exportação, evolui a pleno vapor, e, segundo fontes do segmento, boa parte dos contratos de transporte fechados para tal está com valores mais baixos que os previstos na primeira tabela de fretes divulgada pelo governo, que está sendo contestada na Justiça por entidades setoriais como Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e Associação Brasileira da Indústria Brasileira de Óleos Vegetais (Abiove).

O Valor apurou que uma das grandes tradings de grãos presentes no Brasil calcula que, em seu caso, essa diferença entre os preços praticados nas últimas semanas e os previstos na tabela que está na berlinda já chegou a cerca de R$ 200 milhões.

Outra empresa projeta o montante em R$ 100 milhões. As maiores tradings de soja estabelecidas no Brasil, que lidera os embarques globais do grão, são multinacionais. Estão no rol companhias como Cargill, Bunge, ADM, Louis Dreyfus e Cofco International, entre outras.

Consultado sobre esse problema, André Nassar, presidente da Abiove, preferiu não estimar valores, mas confirmou que a grande preocupação das associadas da entidade atualmente é de fato esse “passivo”. “Como a questão dos fretes continua indefinida, as empresas temem operar na ilegalidade”, afirmou. O segmento espera que do imbróglio jurídico resulte uma nova tabela, com valores mais baixos e adequada à realidade do transporte de soja e outros produtos agrícolas.

Mas caso a tabela publicada inicialmente pelo governo para encerrar a greve dos caminhoneiros prevaleça haverá problemas, porque transportadoras poderão apelar à Justiça para reaver valores eventualmente perdidos.

Nesse caso, a emenda sairá pior que o soneto para as tradings, já que a nova regulamentação dos fretes rodoviários prevê multas de 100% sobre eventuais valores praticados abaixo dos pisos definidos para os fretes rodoviários – que, segundo tradings, elevam os custos de transporte de soja em 50%, em média. Como já informou o Valor, a enxurrada de questionamentos judiciais que se seguiram à publicação da primeira tabela fez o ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspender todas as ações e convocar uma audiência pública sobre o tema para o próximo dia 27.

Nesse contexto, a versão que só depende da sanção do presidente Michel Temer para virar lei continua engavetada e a “neblina” que prejudica a visão dos players que movimentam o carro-chefe do agronegócio brasileiro vai ficando mais densa.

Um executivo observa que, diante da forte demanda externa pelo grão brasileiro – sobretudo por parte da China, que está em guerra comercial com os EUA – e dos bons preços das cargas, também inflados pelo câmbio, é impossível esperar por uma definição dos valores mínimos dos fretes. Em julho, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/Mdic), os embarques brasileiros de soja em grão voltaram a superar a marca de 10 milhões de toneladas e a render mais de US$ 4 bilhões. Embora essas barreiras tenham sido ultrapassadas também em junho, são patamares historicamente elevados, o que acabou por elevar o “passivo” potencial dos fretes. Cálculos da Abiove sinalizam que as exportações de soja em grão do país baterão novo recorde neste ano.

O volume total deverá alcançar 73,5 milhões de toneladas, com uma receita equivalente superior a US$ 30 bilhões. “Ninguém quer trabalhar na ilegalidade, e é claro que a possibilidade de uma empresa ser multada pelas diferenças de valores de fretes praticados preocupa. Como essa empresa vai se defender se for acionada judicialmente?”, questiona Nassar.

Circulam no mercado informações de que o mesmo problema está acontecendo em outras cadeias do agronegócio e mesmo em outros setores, mas, no momento, é difícil encontrar outro produto nas estradas do país com tanta frequência como a soja.

Por Folha Max

A juíza da 4ª Vara Cível de Sinop (500 km de Cuiabá), Giovana Pasqual de Mello, decretou a falência da D.R.F Comercial Agrícola, empresa cujo processamento da recuperação judicial foi autorizado pela Justiça em março deste ano, mas que não conseguiu superar a crise. Os autos não informam a dívida da organização, porém, uma fonte contou ao FOLHAMAX que ela ultrapassa R$ 78 milhões. A decisão é do dia 30 de julho de 2018.

De acordo com informações do processo a empresa teria cometidos crimes financeiros no período em que teve o processamento de recuperação judicial autorizado pela Justiça (entre março e julho deste ano). Um deles, conforme descreve a juíza Giovana Pasqual de Mello, foi a transferência de recursos da D.R.F. Comercial Agrícola às pessoas físicas de seus sócios – prejudicando, assim, o pagamentos de dívidas com seus credores.

“A recuperanda direcionou o recebimento de receitas para conta de terceiros, sem ao menos indicar nos autos tais valores para fins de contabilização, conduta esta que demonstra intenção de desvio de receita, sendo que o direcionamento de créditos não ocorreu devido a insistência dos pagamentos”, diz trecho do processo.

A administradora judicial do processo – responsável por auxiliar a Justiça em trabalhos extra-judiciais, como o levantamento dos débitos, bem como a convocação da Assembleia Geral dos Credores -, informou ainda indícios de uma fraude de operações de crédito na Bolsa de Valores. De acordo com ela, um dos acionistas da D.R.F., Dalton Cagnani, emitiu uma Certidão de Produto Rural (CPR) no valor de R$ 60 milhões.

A “CPR” é um título de crédito onde o produtor recebe por seu valor antecipadamente em troca do pagamento de um produto (soja, milho, algodão, por exemplo) ou de um “resgate financeiro”, segundo informações da BM&FBovespa. O ato teve como objetivo a emissão de Certificados de Recebíveis Agrícolas (CRA), que são outros títulos de renda fixa originados de negócios entre produtores rurais (a própria CPR).

A juíza Giovana Pasqual de Mello ressaltou que a empresa, por meio de um de seus sócios, realizou uma operação de crédito que não condizia com sua “situação econômica” e também falou em “simulação”, ato que infringe a Lei nº 6.385/1976, que disciplina as regras sobre o mercado de valores mobiliários.

“Ademais, os documentos apresentados pela administradora judicial demonstram indícios de atos que podem ser caracterizados como ilícitos penais, enquadrando-se na situação de simulação, notadamente diante da afirmação da própria recuperanda de que a CPR acima referida foi emitida com a finalidade de lastrear o CDC, ou seja, não representou, de fato, a existência da operação a que se refere a cédula”, diz trecho da operação.

Além de decretar a falência, a juíza da 4ª Vara Cível de Sinop determinou que a empresa entregue em até 5 dias a relação nominal de credores, além dos “livros, papeis e documentos, relacionando os bens a arrecadados”. A empresa também foi “lacrada” para evitar execuções.

A magistrada Giovana Pasqual de Mello também mandou expedir ofícios a órgãos e repartições públicas (Detran, Receita Federal, Banco Central, e Registro de Imóveis) informando a existência de bens da D.R.F. Agrícola. A juíza também determinou o envio de cópias da decisão ao Tribunal Regional do Trabalho, às Varas Cíveis da Comarca de Sinop e da Capital, às Varas da Fazenda Pública do Estado de Mato Grosso, além do Ministério Público do Trabalho.

OUTRO LADO

POr meio de nota, a empresa negou qualquer tipo de fraude ou crime financeiro por parte dos sócios da empresa. “Foi, sim, solicitada uma operação de crédito na Bolsa de Valores, com fiscalização e anuência de empresas reconhecidas e certificadas do meio financeiro, mas a a emissão dos Certificados de Recebíveis Agrícolas (CRA) não chegou a ser realizada, não havendo, portanto, nenhum recebimento de valores por parte dos acionistas da D.R.F Comercial Agrícola”, assinala a nota.

Íntegra da nota:

Em relação a decretação de falência da D.R.F Comercial Agrícola, com sede Sinop, os acionistas da empresa vem a público esclarecer que os fatos divulgados não condizem com a verdade, pois não houve fraudes ou crimes financeiros no pedido de falência da empresa. Os acionistas esclarecem que: 

– O pedido de falência da empresa foi solicitado pelos próprios acionistas, autofalência, após ser constatado que não seria possível cumprir as metas e medidas previstas no processo de recuperação judicial, autorizado pela Justiça em março deste ano;

– A acusação sem fundamento foi feita pelo administrador judicial da RJ, sendo que a juíza da 4ª Vara Cível de Sinop, Giovana Pasqual de Mello, decretou a falência, conforme o pedido dos acionistas, desconsiderando totalmente a acusação indevida e irresponsável;

– Não houve a transferência de recursos da D.R.F. Comercial Agrícola às pessoas físicas de seus sócios. 

– Foi, sim, solicitada uma operação de crédito na Bolsa de Valores, com fiscalização e anuência de empresas reconhecidas e certificadas do meio financeiro, mas a a emissão dos Certificados de Recebíveis Agrícolas (CRA) não chegou a ser realizada, não havendo, portanto, nenhum recebimento de valores por parte dos acionistas da D.R.F Comercial Agrícola; 

– O empresário Dalton Cagnani, acionista da D.R.F Comercial Agrícola, informa, ainda, que irá tomar todas as medidas judiciais cabíveis para esclarecer a verdade, especialmente em relação as alegações de fraude e crimes financeiros.

Por Valor Econômico

A Itajubá Investimentos fechou acordo com a Oaktree Capital para distribuir o fundo Oaktree Global Credit, um portfólio com mandato para investir em dez classes diferentes de dívida internacionais.

A gestora americana, criada em 1995 e com US$ 122 bilhões em ativos sob gestão, é conhecida pelas estratégias de investimento em crédito em todos os principais mercados do mundo, incluindo o Brasil. O veículo para os investidores locais acessarem o Oaktree Global Credit, domiciliado em Luxemburgo, será o multimercado Oaktree Global Credit FIM, que vai alocar 100% dos recursos no portfólio estrangeiro.

O fundo brasileiro, gerido pela Mongeral Aegon Investimentos e administrado pela BNY Mellon, será distribuído pela Itajubá. A estratégia de crédito global da Oaktree Capital busca retorno absoluto e pode alocar recursos em dez classes de ativos de crédito, que incluem papéis soberanos, crédito privado, títulos de países emergentes, “high yield” – papéis que oferecem prêmio mais elevado devido ao risco maior – e até “distressed”, de ativos de altíssimo risco, mas com possibilidade de ganhos igualmente elevados. “As possibilidades de diversificação ajudam a limitar a volatilidade, com um melhor controle de riscos e, ao mesmo tempo, oferecem um retorno atrativo em todos os ciclos do mercado”, diz o copresidente e fundador da Oaktree, Howard Marks.

O investimento no fundo multimercado daqui será feito diretamente em reais, mas terá “hedge” em moeda local para proteger o retorno da variação do câmbio. Isso significa que a rentabilidade final será apenas aquela obtida pelo portfólio estrangeiro, sem influência da oscilação do real em relação ao dólar. A Itajubá espera que o portfólio brasileiro multiplique de tamanho nos próximos meses, conforme amplie os canais de distribuição e se torne mais conhecido e acessível.

Segundo Filipe Carneiro, sócio da Itajubá, “nosso objetivo é que o fundo, que já nasce com um patrimônio líquido inicial de aproximadamente R$ 32 milhões, termine 2018 com ativos próximos a R$ 300 milhões e esteja disponível nas principais plataformas de mercado do país.”

Com foco em clientes de alta renda das instituições financeiras, do private banking e de investidores institucionais, como fundos de pensão, seguradoras e “family offices”, o Oaktree Global Credit FIM já está disponível no mercado brasileiro, afirmou. Segundo outro sócio da Itajubá, Agnaldo Andrade, o momento é favorável para a chegada de estratégias de diversificação internacional.

“Os juros no Brasil estão na mínima histórica e a perspectiva é de permanecerem baixos por um período considerável, além disso, a volatilidade aqui e lá fora têm afetado o desempenho dos ativos locais, o que torna importante para qualquer investidor, grande ou pequeno, ter na estratégia alocar recursos no exterior”, disse.

Por Valor Econômico

Neste mês, as usinas das regiões Nordeste e Norte do país iniciam a safra de cana-de-açúcar 2018/19 apostando na produção de etanol como nunca antes em sua história. Refletindo o maior dinamismo dos mercados local e nacional do biocombustível, o etanol deve avançar sobre o reinado do açúcar nessas duas regiões, na avaliação de consultorias e produtores.

Em projeções antecipadas ao Valor, a consultoria INTL FCStone estima que a produção de etanol hidratado (utilizado diretamente nos veículos) nas duas regiões juntas crescerá quase 25% e atingirá 1,05 bilhão de litros. Somando à produção de etanol anidro (que é misturado à gasolina), a produção total do biocombustível deverá ser quase 11% maior do que na safra passada, alcançando 1,98 bilhão de litros, nas contas da consultoria.

Além de um leve aumento na moagem da cana, o crescimento deve ser fruto, sobretudo, do maior direcionamento da matéria-prima para a produção de etanol. Na avaliação da FCStone, apenas 43,5% da cana moída será destinada à fabricação de açúcar – o menor “mix” açucareiro da série histórica da consultoria, iniciada na safra 1999/00. A consultoria JOB Economia, que em abril já previra aumento da produção de etanol (hidratado e anidro) no Norte e no Nordeste, elevou semana passada sua projeção de 1,87 bilhão de litros para 2 bilhões de litros.

Na safra anterior, a JOB estima que as duas regiões produziram 1,8 bilhão de litros. A razão para as usinas preferirem o etanol em detrimento do açúcar é a melhor remuneração do biocombustível, cujos preços têm subido nos últimos meses para os motoristas do Norte e Nordeste sem perder competitividade em relação à gasolina. Na terceira semana de julho, por exemplo, o preço da gasolina C vendida nos postos das duas regiões subiu 26,4% em relação ao mesmo período do ano passado, enquanto o do etanol teve alta de 16,3% na mesma base de comparação.

“Ou seja, a próxima safra deve começar com preços mais altos e demanda acelerada pelo biocombustível produzido na região”, aponta João Paulo Botelho, analista da FCStone, em relatório. Segundo a JOB Economia, a produção de Norte e Nordeste deverá abastecer 43% da demanda das duas regiões, estimada pela consultoria em 4,66 bilhões de litros para o ciclo atual. A região Centro-Sul, que também está tendo uma safra mais alcooleira, deverá enviar um pouco mais de etanol às duas regiões. A JOB Economia prevê uma transferência de 1,1 bilhão de litros do Centro-Sul ao Norte e Nordeste neste ciclo, 100 milhões a mais do que na safra anterior. Com isso, a importação de etanol pelas regiões deve diminuir.

Se na safra passada Norte e Nordeste importaram 1,46 bilhão de litros do produto, na atual o volume deverá cair para 1,2 bilhão de litros, estima a JOB Economia. O bom momento do mercado de etanol contrasta com o enfraquecimento do mercado de açúcar. Enquanto o indicador mensal de preços Cepea/Esalq para o hidratado em Pernambuco em junho (último dado disponível) estava em R$ 1,9982 por litro, alta de 23% sobre igual mês de 2017, o indicador mensal para o açúcar cristal no mesmo Estado estava 11% abaixo do visto um ano antes, a R$ 68,53 a saca de 50 quilos “Diante da deficiência dos preços do açúcar, a única esperança é o mercado de etanol hidratado, que tem apresentado fluxo de vendas mais contínuo em função do preço da gasolina”, afirma Renato Cunha, presidente do Sindaçúcar/PE, que prevê produção de hidratado praticamente igual ao estimado pela FCStone.

Alagoas em particular ganhou um incentivo adicional para produzir etanol. No último dia 27, o governador Renan Filho publicou decreto em que isenta de ICMS a saída de cana para as usinas e permite que as empresas utilizem crédito presumido (da aquisição de insumos) de 12% na venda de etanol hidratado, mesmo regime vigente em Pernambuco. A produção de etanol de Norte e Nordeste também será beneficiada pelo maior volume de cana a ser moído nas duas regiões. A FCStone estima incremento de 2,8% na moagem, para 46,5 milhões de toneladas.

Nas contas da JOB Economia, o processamento será quase igual à safra anterior, projetada em 47 milhões de toneladas. Para o Sindaçúcar/PE, que estima que a moagem da última safra tenha ficado em 44,9 milhões de toneladas, as usinas elevarão o volume de cana moída em 4,7%, para 47 milhões de toneladas. O aumento da quantidade de matéria-prima reflete o avanço da área de plantio nos principais Estados nordestinos para a safra 2018/19. Esse incremento de área foi resultado, em grande parte, da morte de soqueiras (restos de cana que rebrotam a cada safra) pela seca em 2016 e no início de 2017, afirma Botelho, da FCStone.

“A morte das soqueiras obrigou muitas usinas e fornecedores a replantarem parte de seus canaviais em 2017”, acrescentou. Além disso, as chuvas ficaram acima da média no Nordeste até abril, o que favoreceu o crescimento das plantas. Contudo, o tempo voltou a ficar seco a partir de junho.

Para a FCStone, há riscos para a produtividade se as chuvas em agosto ficarem abaixo do normal. Já Cunha, do Sindaçúcar/PE, não vê ameaças para o ciclo atual, mas para a próxima temporada.

Por Valor Econômico

A grande mudança que existe hoje no Brasil e no mundo é o tamanho das dívidas das famílias e empresas. Todos viraram poupadores líquidos tanto no Brasil, quanto no Japão, EUA e Europa.

O único setor que se endivida é o governo, ou seja, a demanda que ainda surge no mundo depende muito do déficit público. Nos EUA, Donald Trump continua dando passos nessa direção com a política de corte de impostos. Enquanto as gigantescas dívidas privadas no mundo não forem equacionadas, não haverá pressão de demanda e, portanto, não haverá inflação fora de controle.

Raciocínio semelhante se aplica ao Brasil, com nível de endividamento privado menor, mas taxa de juros na ponta para consumidores e empresas ainda alta para padrões internacionais. Quem escreveu sobre esse tema foi Richard Koo, no livro “The Holy Grail of Macroeconomics, lessons from the japanese crisis”, leitura obrigatória para quem quer entender ainda hoje os desdobramentos da crise brasileira de 2015.

A grande contribuição do livro está no conceito de “Balance Sheet Recession” trazido pelo autor. Para entender melhor: crises desse tipo resultam de ciclos de crédito mais longos, maiores e mais profundos. Em uma situação dessas, o principal motor da economia passa a ser a minimização de dívidas, e não somente a busca pelo lucro. Empresas, bancos e famílias se concentram em desalavancar seus balanços.

A redução de juros pela política monetária perde potência. Muitas vezes, nos casos de depressão do tipo “balance sheet”, os juros caem para zero e mesmo assim não há demanda por novos empréstimos. Todos querem pagar dívidas. O episódio da bolha imobiliária americana que estourou em 2008 é um belo exemplo desta dinâmica. Alimentada por uma expansão violenta do crédito, política de juros baixos de Alan Greenspan e pela desregulamentação financeira dos últimos 20 anos, a bolha de preços de imóveis nos EUA significou um aumento de mais de 100% no preço das casas e apartamentos entre o final dos anos 1990 e 2008. A criação de hipotecas de segunda linha (“subprime”) permitiu que pessoas sem renda, sem emprego e sem patrimônio pudessem receber crédito para comprar casas a partir de uma complexa engenharia financeira que dependia basicamente do aumento permanente de preços dos imóveis.

O mecanismo funcionou no período que vai de 2003 até 2007, quando a bolha estourou dando origem a uma devastadora crise financeira. A lógica para a criação desses contratos é a de que nos dois primeiros anos da hipoteca o banco podia ganhar com o aumento de preço dos imóveis e se assumia que uma renegociação com outro banco seria sempre possível. Quando a bolha estourou, de fato, várias instituições quebraram ou foram salvas pelo governo americano.

No Brasil pós-2008, uma grande bolha privada também foi inflada a partir da expansão de crédito e forte queda de juros; depois a bolha estourou – em parte por conta própria e também com o auxílio do choque de juros que levou a Selic de 7% a 14,25% em 2014. A alavancagem de crédito (imobiliário e não imobiliário) provocou booms de consumo e de construções imobiliárias, resultando em grande aumento de endividamento e oferta de imóveis. Os investimentos foram, em sua maioria, direcionados para o setor de “non-tradables” (prédios comerciais, residenciais e shopping centers).

As desonerações de 2013 agravaram o problema injetando demanda agregada e complicando a situação de contas públicas. O represamento de preços administrados contribuiu na mesma direção. Em 2015, essas políticas foram revertidas e a bolha que já vinha desinflando estourou. O choque de juros, o realinhamento de preços livres e administrados, e a forte desvalorização cambial (também decorrente do estouro da bolha de commodities) deram o tiro de misericórdia na atividade econômica e estouraram a bolha de crédito e consumo.

Restaram as dívidas e o excesso de oferta que sempre caminham juntos. No começo do processo, o preço dos ativos que lastreia as dívidas sobe e isso aumenta a capacidade de alavancagem dos endividados; a demanda por esses mesmos ativos também sobe e pode acabar criando uma bolha. A oferta responde, só que de maneira lenta: quando “tudo” fica pronto, a demanda some.

Em uma recessão tradicional as políticas monetária e fiscal funcionam normalmente. Em geral, a primeira, sozinha, é capaz de dar conta do recado. O Banco Central reduz juros por um tempo, alguns dos excessos da fase expansiva do ciclo são corrigidos e depois de alguns meses a economia volta a operar normalmente. Não ocorre, portanto, um processo de alavancagem capaz de jogar a economia numa estagnação por anos. No caso de uma “balance sheet recession”, o endividamento é mais profundo e a recuperação, bem mais lenta. Para o Brasil de hoje, as consequências de um processo desse tipo são bem claras: mesmo com juros baixos, a recuperação vai demorar muito devido ao peso das dívidas.

A fragilidade das contas públicas dificulta o uso de uma política fiscal mais ativa, mesmo que pela via do investimento público. A pressão de baixa nos juros e inflação deve continuar no Brasil nos próximos anos, sendo abalada somente por desvalorizações cambiais excessivas.

Paulo Gala é economista e diretor-geral da FAR – Fator Administração de Recursos E-mail: pgala@fator.com.br

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