Por Valor Econômico

SÃO PAULO – A Rossi Residencial informou em comunicado que seu conselho de administração aprovou os termos de acordo de renegociação de dívidas com Bradesco e Banco do Brasil, que, em conjunto, representam um montante de R$ 1,27 bilhão.

A dívida do Bradesco, avaliada em R$ 1,02 bilhão, terá sua maior parte quitada com a entrega de ativos que já eram utilizados como garantia do débito. Do montante, R$ 315 milhões em ativos terão efeito imediato de amortização, mas a empresa estima que o saldo total quitado com ativos possa chegar a R$ 755 milhões. O abatimento remanescente “poderá ser consumado ao longo de 2018, à medida que as transferências de todos esses ativos sejam formalizadas”, afirma o comunicado.

Os cerca de R$ 265 milhões remanescentes terão prazo alongado de pagamento. Serão dois anos de carência para o valor principal e juros. Nos cinco anos seguintes, ou seja, a partir de 2020, o pagamento será escalonado, sendo 5% no primeiro ano e cerca de 55% no sétimo e último ano do contrato.

Com relação ao Banco do Brasil, o saldo de R$ 250 milhões terá aproximadamente 35% abatido com os recebíveis provenientes da venda de imóveis que são atualmente garantia das referidas dívidas. Os 65% de saldo também terão prazo de pagamento estendido. A companhia não detalhou os prazos nesse caso.

Segundo fontes do mercado financeiro que acompanham a companhia, a negociação soluciona cerca de 90% da dívida corporativa da companhia e os termos do Banco do Brasil para quitação do saldo são semelhantes ao do Bradesco.

De acordo com a mesma fonte, a entrega dos ativos utilizados como garantia não deve afetar de maneira significativa o banco de terrenos da companhia.

A avaliação é de que, após a entrega dos ativos, o valor geral de vendas (VGV) do banco de terrenos seja da ordem R$ 4,5 bilhões. No terceiro trimestre de 2017, a parte da Rossi no banco de terrenos era avaliada em R$ 6 bilhões de VGV.

O movimento faz parte do processo de reestruturação da Rossi, anunciado em dezembro do ano passado. Na ocasião, a empresa ainda negociava com os bancos os termos dos acordos.

Após essa virada de página, a empresa pretende retomar de vez os lançamentos, após ficar dois anos e meio sem novos empreendimentos.

A expectativa do mercado é de que a alavancagem, de cerca de oito vezes no terceiro trimestre do ano passado recue para três vezes após a conclusão do acordo.

Por Valor Econômico

SÃO PAULO – A fabricante de materiais de construção Eternit comunicou na noite desta segunda-feira que ajuizou pedido de recuperação judicial na comarca de São Paulo.

Em fato relevante, a companhia justificou o pedido alegando persistente deterioração dos fundamentos da economia, as discussões legais acerca do uso do amianto e queda na demanda e nos preços desse material.

Segue a íntegra do comunicado:

“FATO RELEVANTE

Pedido de Recuperação Judicial

ETERNIT S/A (“Companhia”), em cumprimento ao art. 157, §4º da Lei nº 6.404/76 (“LSA”), comunica a seus acionistas e ao mercado em geral que ajuizou, nesta data, em conjunto com suas controladas e controlada em conjunto, SAMA S.A. – MINERAÇÕES ASSOCIADAS, TÉGULA SOLUÇÕES PARA TELHADOS LTDA., ETERNIT DA AMAZÔNIA INDÚSTRIA DE FIBROCIMENTO LTDA., PRECON GOIÁS INDUSTRIAL LTDA., PREL EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA. e COMPANHIA SULAMERICANA DE CERÂMICA S.A. (“Grupo Eternit”), pedido de recuperação judicial perante a Comarca da Capital do Estado de São Paulo, nos termos dos artigos 51 e seguintes da Lei nº 11.101/05. O pedido, que se soma a uma série de medidas administrativas e operacionais que já vinham sendo adotadas pela Companhia, foi aprovado ad referendum pelo Conselho de Administração da Companhia em reunião realizada hoje.

O pedido tem o intuito de atender ao melhor interesse de todas as sociedades que integram o Grupo Eternit, em especial: (i) preservar a continuidade das atividades do Grupo Eternit e sua função social, com o cumprimento dos compromissos assumidos com seus clientes; (ii) preservar, de forma organizada e responsável, os interesses e direitos de seus fornecedores, credores e acionistas; e (iii) proteger o caixa da Companhia e das sociedades do seu grupo objetivando mitigar riscos operacionais.

O pedido de Recuperação Judicial e os ajustes administrativos já realizados e ainda em processo de implementação se deveram, principalmente: (i) a persistente deterioração dos fundamentos da economia, que afetaram drasticamente os setores de construção civil e louças sanitárias, justamente os mercados atendidos pelo Grupo Eternit, (ii) as discussões legais acerca da extração, industrialização, utilização, comercialização, transporte e exportação do amianto, que vêm impactando as operações do Grupo Eternit e limitando o acesso da Companhia à concessão de novas linhas de crédito; e (iii) a queda na demanda e nos preços do amianto, nos mercados nacional e internacional, reduzindo a rentabilidade.

A Companhia manterá seus acionistas e o mercado informados sobre o desenvolvimento dos assuntos objeto deste Fato Relevante, e divulgará oportunamente, na forma da legislação e regulamentação vigentes, demais informações relativas ao processamento do pedido de recuperação judicial.

São Paulo, 19 de março de 2018.

Rodrigo Lopes da Luz

Diretor de Relações com Investidores”

Por Valor Econômico

A MMX Mineração e Metálicos S.A., mineradora de Eike Batista, está encontrando dificuldades de ira adiante em seu processo de recuperação judicial 15 meses depois de ter pedido proteção à justiça contra credores, em novembro de 2016. Um grupo de credores vem questionando a empresa e conseguiu suspender, por meio de liminar na Justiça, uma assembleia geral que estava prevista para ontem e que iria tentar aprovar o plano de recuperação judicial da companhia. No total, a MMX S.A. reconheceu dívidas superiores a R$ 500 milhões com credores.

Um dos pontos sobre os quais esse grupo de credores se “insurgiu”, e que embasou a liminar obtida no Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ), suspendendo a assembleia, se refere à diluição sofrida pela MMX S.A. na Porto Sudeste, empresa que controla o terminal marítimo homônimo, em Itaguaí (RJ), e que pertence ao consórcio formado pela trading Trafigura e por Mubadala, empresa de investimentos de Abu Dhabi. No pedido feito à Justiça, os credores argumentam que precisam ter acesso à documentação relacionada à diluição da participação acionária da MMX na Porto Sudeste, que teria causado prejuízo aos credores. A Porto Sudeste não comentou.

Inicialmente, a MMX vendeu 65% do porto ao consórcio Trafigura-Mubadala, e ficou com 35%. Mas essa participação foi sendo gradativamente diluída até chegar aos atuais 1,55%. “Estamos em uma batalha [na Justiça] para que sejam apresentados documentos que justifiquem essa diluição”, disse fonte dos credores. “Entendemos essa forte diluição [da MMX no Porto Sudeste] como injustificada e representa uma fraude para com os credores da empresa.”

Esses credores entendem que a participação da MMX na Porto Sudeste garantiria pagamento maior aos credores. Até o momento o plano de recuperação judicial da MMX S.A. impõe desconto de 95% sobre o valor da dívida. Significa que dos R$ 500 milhões devidos, a empresa pagaria ao longo do tempo algo como R$ 25 milhões. No caso da MMX Sudeste, subsidiária da MMX S.A., que entrou com pedido de recuperação judicial em 2014, o corte na dívida foi de 70%, com os credores recebendo 30% ao longo dos anos. A MMX Sudeste, a empresa operacional, reconheceu dívidas totais de R$ 700 milhões. A MMX Sudeste é controlada pela MMX S.A. Eike Batista, por sua vez, tem mais de 50% da holding.

Esta semana a Justiça do Estado de Minas Gerais (TJ-MG), onde tramita a recuperação da MMX Sudeste, homologou um aditivo ao plano original para permitir a venda em separado de 2,5 mil hectares de fazendas da empresa, um dos seus principais ativos. A ideia original era vender essas terras em bloco, o que não foi possível. Agora, com a homologação do 27/03/2018 Recuperação judicial da MMX é suspensa na Justiça por credores aditivo, se pretende “fatiar” e vender as fazendas da MMX Sudeste na forma de Unidades de Produção Isoladas (UPIs). A UPI é uma figura jurídica prevista na lei de falências que dá garantias ao comprador que não vai “herdar” dívidas do vendedor. Em 2015, as terras haviam sido avaliadas em R$ 45 milhões.

A MMX vendeu 65% do Porto Sudeste ao Trafigura-Mubadala, mas hoje possui apenas 1,5% do ativo

Bernardo Bicalho, administrador judicial da MMX Sudeste, disse que deverá ser feito um leilão virtual para venda das terras. Outro ativo a ser vendido pela MMX Sudeste para pagar os credores é uma participação acionária no Terminal de Cargas de Sarzedo (TCS), no qual detém 20%. Em 2017, Bicalho obteve decisão da Justiça de Minas Gerais bloqueando os bens de Eike com o objetivo de cobrir prejuízos causados aos credores da mineradora. Ao mesmo tempo, Bicalho foi autorizado pela Justiça a atuar como representante da MMX Sudeste para buscar eventuais ativos de Eike no exterior para pagamento aos credores da subsidiária.

Até agora a MMX Sudeste pagou mais de R$ 70 milhões aos credores. Houve pagamento de R$ 2 milhões a micro, pequenas e médias empresas e de R$ 70 milhões a credores quirografários (sem garantia), dinheiro obtido com a venda das minas de Ipê e Tico-Tico, na grande Belo Horizonte (MG), para o mesmo consórcio Trafigura-Mubadala que comprou o Porto Sudeste.

O grupo de credores em litígio com a MMX S.A. tinha seus créditos vinculados originalmente à MMX Sudeste. Foi na subsidiária que começou a briga desses credores com a empresa de Eike. O crédito desses credores acabou migrando para a holding MMX S.A. Mas o contencioso não acabou. Um dos pontos que motivaram a discórdia está em um acordo feito pela mineradora com a MRS Logística, que é a principal credora da MMX.

Como resultado desse acordo, celebrado em 2015, o crédito da MRS Logística na MMX Sudeste aumentou de R$ 6,5 milhões para R$ 231,5 milhões. E a maior parte desse crédito (R$ 203 milhões) seria reconhecido no quadro geral de credores da MMX S.A, segundo fontes dos credores. Eles disseram que é preciso apurar as circunstâncias em que houve o reconhecimento do crédito em favor da MRS. Para fontes próximas da MMX, os credores contrários ao plano querem “vender dificuldades”. As fontes reconheceram que o acordo entre MRS e MMX deu “relevância” ao voto da MRS na recuperação judicial da mineradora de Eike.

A MMX S.A. também tem ativos em Corumbá (MS), que estão arrendados para a empresa Vetorial, com expectativa de venda de, no mínimo, R$ 14,5 milhões. O processo de venda dos ativos de minério de ferro da MMX Corumbá, também em recuperação judicial, depende da aprovação do plano pelos credores da mineradora.

 

Por Valor Econômico

A Sementes Arco-Íris, de Mato Grosso, teve o pedido de recuperação judicial deferido na semana passada pelo juiz Lener Leopoldo da Silva Coelho, da Vara de Alto Garças (MT), município sede da empresa. A sementeira, que tem dívidas estimadas em R$ 375 milhões, entrou com o pedido de proteção contra a falência em no dia 9 de março.

Controlada pelo empresário Roland Trentini, a Sementes Arco-Íris tem operações também nos municípios mato-grossenses de Nova Mutum, Vila Rica e Guiratinga. Atualmente suas unidades têm capacidade de produção de 1,2 milhão de sacas de 60 quilos de soja em grãos e 420 mil sacas de 40 quilos de semente de soja. Na safra 2017/18, a sementeira plantou 22,8 mil hectares de soja e 9,66 mil hectares de milho.

De acordo com Euclides Ribeiro da Silva Junior, advogado de Trentini e da empresa, o faturamento previsto para a atual safra é de R$ 121,4 milhões. Em 2016/17, a empresa teve receita de R$ 110,4 milhões, com 21,5 mil hectares de soja e 10,1 mil hectares de milho.

A sementeira tem hoje R$ 375 milhões em dívidas, sendo R$ 8 milhões com fornecedores, R$ 250 milhões com bancos, R$ 100 milhões de custeio, R$ 15 milhões em débitos em decorrência de arrendamentos e royalties e R$ 2 milhões de dívidas trabalhistas.

Segundo consta do pedido de recuperação judicial, a quebra da safra 2015/16 – em decorrência da estiagem no período de desenvolvimento dos grãos no Cerrado – reduziu a produtividade entre 20% e 30% no Centro-Oeste. Isso, diz a empresa, provocou uma quebra no ciclo produtivo: aumentou o endividamento para a produção, dolarizada, e diminuiu a rentabilidade.

“Há um alto endividamento do setor. Uma situação pela qual passa 30% do mercado agrícola de Mato Grosso”, afirmou Silva Junior.

Numa das fazendas da Sementes Arco-Íris, em Guiratinga (MT), houve queda de 80% na produção. No período, o preço da saca de soja foi de R$ 74,07 para R$ 56,61, segundo o pedido de recuperação. “O que acontece é que o custo do plantio não paga o resultado. Não paga nem os juros das dívidas”, disse o advogado.

A negociação entre a Sementes Arco-Íris e os credores será feita por meio digital, de acordo com ele. “A assembleia continua da mesma forma, como está previsto por lei. Mas toda a negociação que antecede será feita por meio digital”, acrescentou Silva Junior.

Por Valor Econômico

A francesa Louis Dreyfus Company deverá capitalizar a Biosev em US$ 1 bilhão para destravar as negociações da controlada brasileira com os bancos credores para rolar sua dívida, segundo informações da agência Bloomberg confirmadas pelo Valor.

A companhia sucroalcooleira tenta repactuar dívidas de R$ 3,66 bilhões com bancos antes do fechamento da atual período fiscal, em 31 de março, referente à safra sucroalcooleira 2017/18.

A injeção foi uma exigência dos bancos, que queriam que a Biosev apresentasse garantias para negociar novas condições, de acordo com uma fonte. A LDC deverá se comprometer a converter uma parte dos créditos que tem a receber da Biosev em ações, na forma de adiantamento para futuro aumento de capital, segundo a fonte.

O valor seria em torno de US$ 750 milhões. A outra parcela da capitalização, de US$ 250 milhões, deverá vir por meio de aporte direto de capital, segundo a Bloomberg.

No fim do último trimestre (encerrado em 31 de dezembro), a Biosev registrava em seu balanço que devia R$ 617,4 milhões em mútuo a sua controladora. Considerando todos os valores devidos à LDC, que incluem contratos de fornecimento e adiantamentos, a Biosev tinha um passivo com a LDC de R$ 1,1 bilhão. O montante representa cerca de 10% de todo o passivo da Biosev no fim do último trimestre, de R$ 10,08 bilhões.

As transações da companhia com a LDC têm crescido nos últimos trimestres e passaram a ganhar ênfase dos auditores de seus balanços a partir do quarto trimestre da safra 2016/17. Com a garantia da LDC, a Biosev deverá destravar a renegociação junto a dois sindicatos de bancos.

A necessidade de renegociar as dívidas já era admitida pela própria companhia em seu último balanço, quando escreveu, nas notas explicativas, que “a capacidade de a companhia continuar com a normalidade das suas operações depende da obtenção de capital adicional, da renovação de linhas de crédito e da geração de operações lucrativas”. A Biosev também indicava que, se sua atividade operacional não gerasse caixa suficiente, seria preciso “buscar financiamento adicional da dívida”.

As saídas avaliadas nos últimos tempos iam da captação de novos recursos via pré-pagamento de exportações até a oferta pública de ações no Brasil e no exterior, como chegou a informar a Biosev em fatos relevantes no ano passado.

Nesta safra, a Biosev acumulou prejuízo de R$ 823,1 milhões e, no fim de dezembro, a dívida líquida era 3,4 vezes maior que seu lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda).

Por Jornal Re Ação

Quando o empresário passa por uma situação de crise, todo o seu foco volta-se para a utilização de meios que o ajudem a superar o momento difícil. E, justamente, a Lei de Recuperação Judicial (11.101/2005) tem se apresentado como alternativa ao priorizar, através do seu artigo 47, a preservação da empresa, sua função social e o estímulo à atividade econômica.O que surpreende muitos empresários durante o processo é que a mesma Lei também protege excessivamente o crédito derivado da relação de trabalho ao limitar seu pagamento a um prazo máximo de 12 meses, conforme o artigo 54. Esta disposição pode ser considerada conflitante, principalmente para empresas em recuperação que possuem um passivo trabalhista que exige um parcelamento maior, sob a pena de se tornarem inviáveis. E como resolver esse impasse?

Para o advogado Guilherme Camará Moreira Marcondes Machado, sócio do Marcondes Machado Advogados, uma alternativa seria a flexibilização do prazo em determinadas circunstâncias. Entretanto, a questão vai além da restrição legal de um ano para pagamento dos créditos trabalhistas. A limitação trazida pelo artigo 54 deveria ser considerada, sobretudo, pelo empresário, para saber o momento certo de requerer a recuperação judicial. “Esse é um problema recorrente na área, o empresário costuma buscar o auxílio de um especialista apenas quando a situação da empresa já está muito deteriorada, o que inclui um
inchado crédito trabalhista”, acrescenta Marcondes Machado. Não raro, na própria Justiça do Trabalho é comum nos depararmos com acordos que preveem parcelamento maior que 12 meses para o crédito trabalhista. Por isso, é compreensível entender que o mesmo deveria acontecer em um processo de recuperação judicial, desde que não configure abuso de poder econômico pelo devedor. “O instrumento da recuperação judicial não gera efeitos apenas entre as partes envolvidas, mas, beneficia a sociedade como um todo, pois a empresa viável que foi preservada continuará a gerar diversos benefícios decorrentes da atividade empresarial, como empregos, circulação de riquezas e recolhimento de tributos”, comenta o advogado.

No início da vigência da Lei nº 11.101/2005, algumas decisões pontuais – como nos casos do Moinho de Trigo Santo André S/A e do Grupo Gelre – permitiram um parcelamento acima do limite de um ano. Hoje, porém, os Tribunais não homologam planos que não observem o artigo 54, mesmo que um prazo maior tenha sido
aprovado pelos credores na assembleia geral. “Nestes casos, a flexibilização do artigo 54 só foi possível com a concordância da forma de pagamento pelos sindicatos. Hoje, contudo, ainda que haja a anuência destas associações de entidades, o entendimento é que o prazo de um ano para pagamento do passivo trabalhista não pode ser alterado pela vontade das partes”, relata Marcondes Machado.O advogado destaca ainda que, embora a Lei determine que as impugnações de créditos trabalhistas devam, a rigor, tramitar perante a Justiça do Trabalho, na prática elas têm sido apresentadas diretamente ao juízo da recuperação judicial.

“Este procedimento se mostra correto, uma vez que a recuperação judicial é um processo que envolve inúmeros interesses conflitantes, razão pela qual as decisões devem ser tomadas de maneira equilibrada, levando-se em consideração o contexto no qual aquela empresa está inserida. É o juízo da recuperação que detém a maioria das informações para decidir de forma justa e ponderada acerca das propostas constantes no plano apresentado pelo devedor”, completa.Deságio de crédito trabalhista?- Esse é outro ponto ainda muito controverso. O fato da legislação atual não determinar de forma clara a sua aplicação, faz com que toda decisão caiba aos tribunais, que, geralmente, têm entendido pela proteção ao crédito trabalhista e proibido a incidência de deságio.Porém, na visão do sócio do Marcondes Machado Advogados, o emprego do deságio para a Classe I é perfeitamente compatível com a legislação vigente. Ele explica que a Lei nº 11.101/2005 traz em seu artigo 50 um rol exemplificativo de meios de recuperação que podem ser utilizados pela recuperanda para a superação da crise econômico-financeira. Dentre esses exemplos, a lei franqueia ao devedor a possibilidade de concessão de prazos e condições especiais para pagamento das obrigações vencidas ou vincendas, limitando, contudo, sua aplicação no que diz respeito aos créditos trabalhistas, que devem ser pagos em, no máximo, um ano. “Logo, pelo fato da limitação temporal do artigo 54 ser uma regra de exceção à regra geral contida no artigo 50, sua interpretação não pode ser feita de forma extensiva, razão pela qual a previsão de deságio é cabível”, conclui Marcondes Machado.

Por Jornal Re Ação

A perda da capacidade do Estado brasileiro em financiar as atividades rurais na década de 90 obrigou o governo a criar mecanismos que permitissem a mobilização de crédito e capital no setor do agronegócio, de forma a garantir a saúde da atividade. Nesse cenário, ganharam especial relevância os títulos derivados por legislações específicas, com destaque para a Cédula de Produto Rural (CPR)que se popularizou após a edição da Lei 8.929/94.Este título permite aos seus emissores – produtores rurais, cooperativas e suas associações – a pura e simples promessa de entrega de determinado produto rural com data, local especificações e qualidades preestabelecidas. Uma vez emitida, a CPR transforma-se em um título líquido, certo e exigível pela quantidade e qualidade dos produtos nela previstos, podendo ser objeto de endosso para qualquer interessado.

Na avaliação de Amanda Gabriela Gehlen, advogada do Antonio Luiz Ferreira Advogados Associados, a CPR revelou-se uma ferramenta extremamente versátil
e eficiente no ambiente do agronegócio. “A simplicidade conferida ao título, com a possibilidade de vinculação de garantias reais para o cumprimento da obrigação de entregar e, ainda, a ampla circularização permitida pelo endosso, transformou este instrumento em um verdadeiro ativo financeiro. Isso atraiu, além dos produtores rurais, o interesse de diversos segmentos do mercado, como bancos, seguradoras, financiadores, bol-sas de mercadorias e de futuros, centrais de custódia e investidores”. Todo acesso ao crédito pelos produtores rurais, cooperativas e suas associações pode ser realizado em qualquer etapa do processo produtivo com baixos custos, permitindo a concretização de operações de compra e venda, prestação de garantia, obtenção de financiamento junto a trading companies, bancos, fornecedores, operações de troca (barter), entre outros. “Vale ressaltar que a CPR foi introduzidaem 1994, anterior à criação do Código Civil
de 2002, e, por isso, obedece às disposições compreendidas da Lei Uniforme de Genebra, não estando submetida ao diploma civil. Entretanto, o art. 10 da lei
no 8.929/94 trouxe regras específicas de direito cambiário a este título”, explica Amanda.

A promessa do emitente em entregar os produtos rurais vinculados ao título pode ser garantido por penhor, hipoteca e alienação fiduciária dos bens de sua própria titularidade ou de terceiros. Para constituição destas garantias não é necessária a formalização em instrumento próprio, sendo suficiente a inserção de uma cláusula na própria cártula. Dessa maneira, dispensa-se, por exemplo, a outorga de uma hipoteca por meio de escritura, bastando apenas, para averbação do ato, a exibição da CPR no cartório em que o imóvel dado em garantia está identificado. “Para que a CPR tenha eficácia contra terceiros, o art. 12 da Lei 8.929 de 1994
determina que o instrumento deve ser registrado no cartório de registro de imóveis do domicílio do seu emitente, com objetivo de garantir a sua publicidade. Da mesma forma, caso o emitente tenha prestado alguma garantia – penhor, hipoteca, alienação fiduciária – para cumprimento da obrigação constante do título, a CPR deverá ser averbada à margem das matrículas dos imóveis prestados em garantia”, esclarece Amanda.O credor que tem CPR como garantia pode estar sujeito aos efeitos de uma recuperação judicial, exceto em casos de alienação fiduciária. Mas sua classificação dependerá da existência, ou não, de garantias incorporadas na CPR, como alerta a advogada: “um credor que recebeu uma cédula em garantia de uma operação de venda de insumos agrícolas sem vincular qualquer espécie de garantia à CPR, por exemplo, estará sujeito à recuperação judicial eventualmente requerida pelo emitente do título na classe “quirografária”. Porém, se a CPR foi cedularmente garantida por penhor e hipoteca, o credor figurará na classe “garantia real” perante a recuperação judicial de seu emitente”.Amanda ressalta que o credor só não estará sujeito aos efeitos da recuperação judicial do seu emitente caso a CPR esteja garantida por alienação fiduciária, conforme prevê o artigo 49, §3º da Lei 11.101/2005, que permite ao credor a consolidação da propriedade fiduciária em seu favor.A CPR ainda pode ser convertida e liquidada em obrigação financeira, desde que observados os requisitos estabelecidos no art. 4º-A.

“A legislação que antes admitia o adimplemento da CPR apenas com a entrega do produto nela discriminado, passou, em 2001, a permitir que o cumprimento da obrigação ocorra em moeda, desde que a quantia expressa em reais seja auferida com base na cotação dos produtos agrícolas que estão vinculados ao crédito. Mesmo na sua versão financeira, a CPR nunca será emitida apenas com a obrigação pecuniária de pagar determinada quantia, mas sempre deverá constar do título a discriminação de um produto rural, como sua quantidade, qualidade e especificações; o que, para liquidação financeira, deverá ser utilizado para apuração dos valores de acordo com os preços praticados no mercado”, acrescenta Amanda.A advogada ainda relata que a permissão de liquidar o título em dinheiro deverá
cumprir todos os requisitos exigidos pelo mencionado art. 4º-A da lei de regência, com destaque para a necessidade de contemplar a expressão “Financeira” em
sua denominação “Cédula de Produto Rural”.

Por Jornal Re Ação

A necessidade de se manter em dia com todos os encargos fiscais é um dos grandes desafios na vida do empresário. Segundo o relatório do banco mundial Doing Business 2018, uma empresa brasileira necessita de 1.958 horas ao ano para quitar todas as suas obrigações tributárias. O tempo é seis vezes maior que a média registrada nos países da América Latina e Caribe, 332 horas, concedendo ao Brasil a 184ª posição entre os 190 países ranqueados com relação ao tempo gasto na burocracia tributária.O peso desses tributos fica ainda maior em momentos conturbados da economia, a ponto de muitos juristas defenderem a criação de uma legislação específica para o tema, com intuito de que ela possa ser um instrumento tributário de auxílio à retomada das empresas em tempo de crises
econômicas, como ressalta o advogado Fábio Calcini, sócio do escritório Brasil Salomão e Matthes Advocacia.

“O ideal é que a legislação não se resuma à Lei de Recuperação Judicial e, em matéria tributária, aos famosos parcelamentos popularmente chamados de Refis ou anistias. Acredito que é preciso ir muito além com a edição de leis modernas e que busquem, do ponto de vista fiscal, viabilizar a retomada econômica da empresa, numa relação de colaboração ética e lícita entre Fisco e contribuinte”. Exemplos de quem vivencia a dificuldade de uma tributação que não foi criada para um mercado em crise, as empresas que iniciam o processo de recuperação judicial no país descobrem em pouco tempo a importância do tema. De nada basta elaborar um plano, tê-lo aprovado por credores e colocá-lo em prática, se não calcularem corretamente os tributos inseridos em cada fase desse processo, que não são poucos e impactam o processo recuperacional.
“Um dos caminhos do plano de recuperação judicial é o pagamento dos créditos com deságio. No caso do devedor, o valor do deságio, ou seja, a diferença entre o montante efetivamente devido e o ajustado com desconto, é considerado um ganho tributável, na linha de uma redução de passivo. Sendo assim, haveria a tributação para fins do IRPJ (Imposto de Renda Pessoa Jurídica) e da CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido), como regra, sobretudo, se o contribuinte deduziu no lucro real tal valor como despesa”, explica Calcini que, na perspectiva do credor, o deságio pode ser lançado como despesa, ou seja, perda no recebimento de créditos, o famoso PDD (Provisão para Devedores Duvidosos)”.

Por outro lado, o jurista alerta que para esses mesmos deságios concedidos no plano não deveriam ocorrer tributação de PIS/PASEP e COFINS. “Tratam-se de contribuições exigidas sobre a receita do ponto de vista jurídico, sendo possível deixar de tributar, já que não configuraria tal hipótese. Apesar de eventual tributação,
tudo depende do caso concreto, pois, se a empresa possui, por exemplo, prejuízo e créditos acumulados, pode até mesmo ter tributação, mas não sofrerá impacto no caixa”.

Caso a empresa reconheça a existência de efeitos tributários, sobretudo IRPJ e CSLL, um dos caminhos mais adequados para a tributação deste “ganho” acontece
no momento da realização, ou seja, na medida do cumprimento do plano perante os credores, explica Calcini. “Antes disso, o que temos é uma expectativa de ganho, uma renda potencial, que não deve ser tributada, sob a pena de exigir tributo sobre patrimônio e não renda ou lucro efetivo, com nítido caráter de confisco e desrespeito ao princípio da capacidade contributiva, muito relevante em uma recuperação judicial”. A infinidade de tributos inseridos num processo, como o de recuperação judicial, é apenas um exemplo do complexo sistema tributário brasileiro. Enquanto não se cria uma legislação específica que ajude a desburocratizar o sistema, resta ao empresário ficar atento e buscar soluções que diminuam a carga inserida, ou ao menos, não a amplifique ainda mais, como conclui Calcini: “É preciso, portanto, planejamento. Quando da avaliação da busca pela recuperação judicial, já é necessário apreciar os impactos tributários e, principalmente, o que pode ser feito antes desta medida, de forma lícita, para impedir ou postergar pagamento de tributos, até mesmo para viabilizar a recuperação judicial de fato”.

 

Por Jornal Re Ação

ão é de hoje que o mercado brasileiro sabe que o setor judiciário possui um número excessivo de processos, com crescimento anual da quantidade de ações que ficam sem decisão. De acordo com o relatório “Justiça em Números”, divulgado em setembro pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), foram mais de 79,7 milhões processos em tramitação indefinidos em 2016, um crescimento de 31% em relação a 2009 quando o número era de 60,7 milhões. Este resultado poderia ser justificado pela elevada quantidade de novos casos que surgem, porém neste mesmo período a entrada de processos judiciais apresentou um crescimento percentual menor que o de casos acumulados, com apenas 20% de alteração, saltando de 24,6 milhões em 2009 para 29,4 milhões em 2016.Ainda segundo o relatório, no Brasil há 1,6 mil processos para cada juiz, quantidade notavelmente superior à maioria dos países vizinhos latino-americanos que apresentam
uma média de 400 a 600 ações por magistrado.

A taxa de congestionamento – índice de processos sem decisão – chegou a 73%. E considerando o indicador do prazo, uma execução fiscal na Justiça Estadual, por exemplo, demora em média 6 anos e 8 meses para ser finalizada; enquanto que na Justiça Federal prolonga-se por 7 anos e 6 meses. Neste cenário, encontram-se os processos de recuperação judicial e falência que exigem do juiz e da sua equipe uma especialização que vai além dos códigos de Direito e da auditoria documental. Para Manoel Justino Bezerra Filho, que atuou como desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo entre 2012 e 2015, o tempo é crucial na análise desse tipo de caso: “A matéria empresarial é bastante específica e, muitas vezes, exige decisões urgentes, sob a pena, em caso de atraso, de não atenderem mais à necessidade que havia se apresentado”. Em processos de recuperação judicial, a atuação do juízo vai além da simples homologação do plano, aprovado em assembleia pelos credores. É necessário também um alto conhecimento do Direito falimentar, tanto material quando processual, o que inclui o acompanhamento das atividades e apreciação da idoneidade das demonstrações financeiras do devedor. Em muitas ocorrências, ainda se faz necessária a realização de uma perícia prévia, para evitar fraudes ou irregularidades no ajuizamento do pedido de recuperação. E nesse caso, juízes que atuam em varas cíveis cumulativas ou em varas únicas ainda precisam dividir atenção com diversos casos de outras naturezas, como criminais, pensões alimentícias, mandados de segurança, penhoras, despejos, entre outros. No meio de tantos processos, o tempo torna-se muito curto para comandar e analisar um detalhado processo de recuperação judicial ou falência de maneira eficiente. Soma-se ainda, a carência de experiência técnica necessária para estes casos que exigem decisões de direito empresarial e falimentar, envolvendo circunstâncias de interesse coletivo, muitas vezes particulares e distintas entre elas. É preciso examinar o processo, considerando as alternativas e conveniências, analisando as condições de recuperação e o impacto social, trabalhista e econômico.Na busca por rapidez na solução de conflitos, muitos empresários submetiam – e ainda submetem – suas demandas às câmaras de arbitragem sob o argumento de que estas, por serem especializadas, são mais céleres. “Entretanto, estas câmaras não se apresentaram tão rápidas quanto se pretendia e são dispendiosas para as partes, o que, de certa forma, traz alguma decepção”, alerta Manoel Justino. Para ele, se fossem resolvidos estes dois aspectos, estas câmaras poderiam ser um bom caminho para a solução das questões empresariais. Por outro lado, ao canalizar este tipo de demanda para as varas especializadas, seria aberto, provavelmente, um caminho para diminuir a necessidade das câmaras de arbitragem. Considerando todos estes pontos, fica fácil entender a importância da criação das varas especializadas em recuperação judicial e falências para o setor judiciário brasileiro. “Este movimento favorece principalmente os empresários, que necessitam ter segurança jurídica para gerir seus negócios. Caso ocorra algum imprevisto, há maior previsibilidade sobre qual e quando será a decisão judicial”, comenta Manoel Justino. Para ele, a experiência das câmaras que passaram a ser especializadas em direito empresarial foi, sem dúvida, percebida positivamente por juízes, empresários e advogados.

Atualmente, o Brasil possui 32 varas especializadas em atender casos de recuperação judicial e falência – entre as empresarias e as exclusivas – distribuídas em 18 comarcas. As cidades campeãs são Rio de Janeiro com sete, todas empresariais, eSão Paulo com três que atuam especificamente com casos de recuperação judicial e falências. O estado paulista inclusive inaugurou a 3ª vara de Falências, Recuperações Judiciais e Conflitos Relacionados à Arbitragem da Comarca de São Paulo no último mês de dezembro.Para ilustrar a importância da criação destas unidades especializadas e o atraso brasileiro neste processo, basta verificar que a nova vara instalada na capital paulista receberá processos que tramitam há mais de 15 anos nas mais de 40 varas cíveis centrais e que obedecem a já
extinta Lei da Concordata. Entre eles estão, por exemplo, os casos do Mappin que teve a falência decretada em 1999, da Petroforte que entrou com processo em 2001, o do Consórcio Nacional Garavelo e das Fazendas Reunidas Boi Gordo que tiveram a falência decretada em 1997 e 2004 respectivamente. A quantidade é tão grande que esta unidade não receberá novas ações por pelo menos dois anos. Especialistas consideram que o número ainda é pequeno. O ideal é que o país dobre a quantidade atual de varas especializadas, alcançando 60 unidades, com pelo menos uma em cada estado. Desta forma, será possível colocar o Brasil no mesmo patamar dos países com um sistema de insolvência mais maduro, ao criar um cenário mais previsível para as decisões judiciais e, consequentemente, para os investimentos, contribuindo diretamente com o crescimento da economia brasileira.Ao regionalizá-las será possível trazer os processos de recuperação para próximo de um juiz mais familiarizado com a matéria e atividade local. “As varas empresariais são bem-vindas, principalmente, em grandes centros. “Entretanto, parece razoável instituir regiões para estas unidades jurídicas preparadas para atender o direito empresarial e falimentar, em locais adequados. No estado de São Paulo, há potencial para criar varas regionais especializadas em Santos, Campinas, Ribeirão Preto e São José do Rio Preto”.

Por Jornal Re Ação

Há duas normas atuais – Leis 13.140/2015 e 9.307/1996 – que buscam regulamentar as práticas de mediação judicial e extra-judicial e da arbitragem, assim como os seus procedimentos e as suas possibilidades de utilização em conflitos envolvendo a administração pública. Ambas configuram métodos de solução de conflitos que pressupõem a intervenção de um terceiro, entretanto existem diferenças entre os dois sistemas. Enquanto a arbitragem é uma modalidade em que terceiros ou
árbitros indicados pelas partes ou pelo Estado resolvem o conflito por meio de uma solução impositiva, de direito ou de equidade, obrigando ao menos uma das partes a uma conduta ou pagamento que resolva a questão colocada sob sua análise; a mediação, regulada pela lei 13.140/2015 e com menções e previsão no CPC/2015, considera a atuação de um terceiro – o mediador – independente e imparcial, que tem a responsabilidade de viabilizar, melhorar ou reestabelecer a comunicação entre as partes, de modo que os próprios grupos envolvidos possam compor a questão. “Tanto a mediação quanto a arbitragem visam, principalmente, diminuir a demanda sobre o judiciário, gerando agilidade e reduzindo prolongamentos desnecessários no processo”, ressalta o advogado Marcos Kawamura, sócio do Kawamura Advogados.

Atualmente, a Lei de Recuperação Judicial não proíbe que uma empresa que entrou com pedido instaure um processo de mediação ou conciliação; e no mesmo contexto, a Lei de Mediação não excluiu do seu escopo casos de insolvência, implicando diretamente os planos de recuperação judicial. “Há diversas linhas
de pensamento a respeito do assunto, mas todas reconhecem que o traço forte da mediação é a natureza do direito em discussão. Todo direito a ser submetido à mediação deverá ser transigível. Não deve haver proibição legal à negociação ou disposição (art. 3º da Lei de Mediação)”, comenta Kawamura. O advogado destaca que nesse caso, toda negociação de mediação deve considerar as diretrizes do artigo 47 da Lei 11.101/2005, que define o objetivo da recuperação judicial em ajudar a empresa devedora a superar a crise econômico-financeira, mantendo produção e emprego, preservando sua função social e econômica. “Para que esta superação seja viável, no entanto, a empresa deverá negociar intensamente com seus credores, visando a confecção de uma estratégia que atenda os interesses de todos os envolvidos e possa ser aprovada em assembleia geral designada pelo juízo recuperacional”, completa.Há na recuperação judicial, portanto, ampla autonomia privada, sendo a negociação uma característica natural e esperada do processo. De acordo com Kawamura, “a atuação do Estado deve-se conter à legalidade do processo vis-à-vis as disposições previstas na Lei 11.101/2005, ficando credores e devedor livres para transigirem sobre direitos suscetíveis de negociação, desde que sejam patrimoniais transigíveis e não afetem o direito de terceiros”.Entretanto, a própria Lei 13.140/2015 traz critérios que deverão ser observados no momento da estipulação de cláusula de mediação. Para aplicar este mecanismo num plano de recuperação judicial, deve-se considerar os princípios de imparcialidade do mediador, de isonomia e autonomia da vontade entre as partes, de oralidade e informalidade, de busca do consenso, de confidencialidade e de boa-fé. Tomando-se em conta esses princípios e demais disposições constantes da legislação e de normas aplicáveis, a cláusula que instituir a mediação no plano de recuperação judicial não poderá estabelecer limitações não negociadas ou não expressamente instituídas pela Lei; não deverá versar sobre direitos que, em virtude de sua natureza ou de determinação legal, não possam ser objeto de transação; e, por fim, não poderá obrigar qualquer um dos participantes a permanecer noprocedimento de mediação.

A cláusula também deverá conter, ao menos, o local e os prazos mínimo e máximo para a realização da primeira reunião de mediação, os critérios para escolha do mediador ou equipe de mediação e a penalidade em caso de não comparecimento da parte convidada à primeira reunião de mediação, ou a indicação de um regulamento idôneo que estipule estas condições, conforme artigo 22 da Lei 13.140/2015.Um exemplo do uso da mediação na recuperação judicial pode ser visto no processo da maior companhia telefônica do Brasil que corre perante o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Nele, o juiz de primeiro grau autorizou a realização
de mediação com pequenos credores da empresa, com créditos de até R$ 50 mil. A decisão foi levada à discussão no segundo grau e mantida pela 8ª Câmara
Cível do Estado.

A inserção de uma cláusula de mediação no plano de recuperação judicial, caso aprovada pelos credores e homologada em juízo, pode estimular as partes envolvidas a utilizar este expediente para dar maior agilidade na negociação e na almejada solução dos conflitos, sobretudo no que se refere ao reconhecimento ou não dos créditos a ele sujeitos, seus valores e a forma de sua liquidação, permitindo, assim, presteza no trâmite e significativa redução de investimentos necessários, inclusive com advogados.

“Esta ação gera resultados positivos para todos os envolvidos, pois, em tese, o plano de recuperação judicial poderá ser aprovado mais facilmente e o seu cumprimento se iniciará mais rapidamente. A redução dos gastos, por sua vez, gera economia para a empresa que poderá reverter esses valores em suas atividades operacionais e em benefício dos credores que já têm créditos incontroversos”, enfatiza Kawamura. Outra vantagem é a confidencialidade, igualmente prevista na Lei de Mediação, que deverá ser mantida em favor das partes, exceto se convencionado diferentemente por elas ou se for exigida a revelação de informação por lei ou para o cumprimento do acordo eventualmente obtido pela mediação.Porém, mesmo com todos os benefícios e amparos legais, atualmente, poucos planos de recuperação judicial incluem cláusulas de mediação. Para Kawamura, em qualquer legislação nova é necessário um período de adaptação. “Nem sempre, a VacatioLegis- prazo legal, entre a publicação da lei e o início de sua vigência – é tempo suficiente para que as inovações sejam utilizadas em toda a sua extensão. A Lei de Mediação entrou em vigor, efetivamente, em dezembro de 2015, acompanhada pelo CPC/2015, em março de 2016, quando, de fato, iniciou-se uma difusão maior dos meios alternativos – ou adequados – de solução de conflitos.

As inovações, sempre que chegam, demoram um tempo para serem incorporadas e utilizadas com fluidez e naturalidade”. “Com os novos casos-paradigma, como a recuperação judicial da Oi e a renovação do pensamento jurídico, a partir de iniciativas como a 1ª Jornada de Prevenção e Solução Extrajudicial de Litígios que ocorreu em meados de agosto de 2016, é plausível que haja um incremento deste tipo de mecanismo, especialmente envolvendo questões incidentais, como as objeções, divergências, habilitações e impugnações de crédito”, conclui Kawamura.