Por Nova Cana

Solicitar um pedido de recuperação judicial de uma empresa em crise e aprovar seu plano de ação com os credores são passos importantes no caminho para reverter um quadro negativo. Porém, a execução do plano é tão, ou mais, relevante para a real efetivação desta retomada.  E dentro deste processo, a figura do administrador judicial é um elemento fundamental.

Nomeado pelo juiz, caberá a ele ser o responsável pela sua fiscalização e administração, sendo considerado até o seu principal auxiliar. “O fracasso ou êxito dos procedimentos de recuperação judicial ou falência é influenciado diretamente pela atuação do Administrador Judicial” comenta o consultor Márcio Malaguti, sócio da EXM Partners.

Idôneo, o administrador precisa, preferencialmente, ser advogado, economista, administrador de empresas ou contador, ou pessoa jurídica especializada. Esta última é uma tendência que vem ganhando força, pois possui maior expertise em diversas áreas e atua com equipes multidisciplinares, o que acaba agregando conhecimentos econômico-financeiros e de negócios ao setor jurídico.

Sua remuneração é fixada pelo próprio juiz, considerando a capacidade de pagamento do devedor, o grau de complexidade do trabalho e os valores praticados no mercado.  O valor final ainda possui um limite de 5% da quantia devida aos credores submetidos à recuperação judicial ou do valor de venda dos bens na falência.

Este é um tema que tem gerado inúmeras discussões no judiciário, onde existem entendimentos que desaprovam os parâmetros da lei 11.101/05, que permitem que o juiz nomeie e determine os honorários do administrador judicial, com poucas limitações. Neste sentido, por diversas vezes, os valores fixados pelos juízes tem sido objeto de revisão por tribunais superiores.

Em diversos casos, os devedores alegam que os honorários são muito elevados, superiores aos praticados no mercado para atividades semelhantes, e ainda que as saídas de tais recursos possam comprometer o processo de recuperação das empresas. Diante disso, pedem revisão dos honorários a instâncias superiores.

Atualmente, existe um projeto de lei que sugere a alteração da remuneração do administrador judicial limitando seu valor a 3% da dívida ou dos bens vendidos, e adicionalmente se for pessoa física, terá a remuneração mensal limitada ao teto do funcionalismo, ou seja, ao salário pago aos ministros do Supremo Tribunal Federal.

Para Malaguti, é preciso considerar outros aspectos antes de promover medidas que alterem a remuneração destes profissionais. “Para cada empresa existem particularidades que podem influenciar significativamente o grau de complexidade dos trabalhos exercidos pelo administrador judicial, independente do tamanho da dívida ou dos bens da recuperação judicial. Em muitos processos, por falta de recursos ou bens da devedora, o administrador judicial atua sem conseguir receber qualquer remuneração. Vale ressaltar que atualmente, quando há situações circunstanciais de excessos, os processos já são pontualmente tratados pelo judiciário”.

A EXM Partners é uma das principais consultorias do País especializada em Turnaround Management e Recuperação Judicial. Fundada em 2002, iniciou sua atuação com foco no mercado de PMEs, que na época não era bem servido pelas “Big four”. Com a entrada em vigor da nova Lei de falências brasileira, em 2005, um novo mercado foi aberto para Turnaround Management e Reestruturação de Dívidas. A empresa anteviu esta oportunidade e foi pioneira neste setor.

Desde então, a empresa desenvolveu mais de 400 projetos em diversas práticas, conduzindo mais de 80 casos de recuperação judicial, com 100% dos planos aprovados pelos credores. Este desempenho consolidou a EXM Partners como líder nacional em número de projetos de reestruturação e recuperação judicial, referência entre credores, operadores do direito e agentes da indústria de Turnaround em geral. Tem como foco viabilizar as melhores soluções de reestruturação para os casos mais complexos e desafiadores, de forma a atender às exigências legais e, ao mesmo tempo, assegurar a continuidade das operações e dos benefícios socioeconômicos que decorrem da atividade empresarial.

Por Valor Econômico

SÃO PAULO – O pedido de recuperação judicial da BioÓleo – joint venture da Petrobras e da 2H Participações, com sede em Feira de Santana, interior da Bahia – foi deferido hoje pelo juiz Adriano Vieira de Almeida, da 4ª Vara Cível da Comarca de Feira de Santana, na Bahia. A consultoria EXM Partners é a responsável pelo elaboração do plano de recuperação judicial da BioÓleo. Hoje, a BioÓleo tem capacidade para produzir 74 mil toneladas de óleo por ano e tem área industrial de cerca de 210 mil metros quadrados. A empresa, que tem como sócios a 2H Participações e a Petrobras Biocombustível, tinha como proposta em 2010 ser a principal fornecedora de óleo vegetal refinado para a Fábrica da Petrobras em Candeias (BA), o que exigiu fortes investimentos iniciais para aumentar a produção. Segundo a EXM Partners, a com a redução de oferta de mamona, a BioÓleo viu sua produção cair para aproximadamente 10 mil toneladas de óleo por ano, o que acabou gerando uma dívida acumulada no valor de R$ 44 milhões, sendo 85% para bancos e 15% para outros fornecedores. O plano de recuperação judicial da empresa tem de ser apresentado no prazo de 60 dias aos credores.

Por Valor Econômico

Luciano Corrêa, que esteve à frente do parque Hopi Hari durante a atual crise financeira, decidiu vender o resto de suas ações e deixar a empresa. Em recuperação judicial desde o ano passado, a companhia confirmou ontem que a energia elétrica do parque, em Vinhedo (SP), foi cortada no dia 10 de abril por falta de pagamento.

Corrêa deixou definitivamente a sociedade nesta semana, com a conclusão da venda de 20% de suas ações na HH Participações S.A., controladora indireta da companhia, para José Luiz Abdalla. O valor não foi informado.

Correa, que já foi tanto presidente do Hopi Hari quanto de seu conselho de administração, já havia vendido, em dezembro, 75% das ações da HH para Abdalla e outros 5% para um executivo ligado à Abdalla por valores não revelados.

Corrêa tornou­se sócio do Hopi Hari após uma operação em 2009 em que a consultoria Íntegra, cujos sócios eram ele e Nelson Bastos, assumiram o Hopi Hari. Segundo a página da empresa na internet, Corrêa afirma ter “mais de 15 anos de experiência em ‘principal investing’ no Brasil” e foi “associate” na GP Investimentos. No Hopi Hari, Corrêa informava que instalaria brinquedos inéditos, traria novas atrações e repaginaria antigos.

A dívida hoje supera R$ 300 milhões. A receita líquida não chegou a R$ 60 milhões no ano passado, segundo uma fonte.

O novo dono, José Abdalla, foi sócio nos anos 90 de uma empresa mineira focada em obras públicas, a QGT Empreendimentos e Construções Ltda. Depois disso, tornou­se sócio da BR Realty. Entre os empreendimentos que afirma ter construído estão o Ibis da Paulista e o centro de distribuição da Telha Norte. O pai de Abdalla, Anésio Abdalla, foi sócio do banco BCN.

Ao jornal “O Estado de S. Paulo”, dias atrás, Abdalla disse que abriu negociações com fundos que investem em projetos de alto risco. Se isso não avançar, ele pode se desfazer dos ativos do parque.

Sobre a falta de energia elétrica no parque, a Comissão de Valor Mobiliários questionou ontem o Hopi Hari. A interrupção foi confirmada. A empresa informou que o parque funciona normalmente, mas não explicou como.

Por Valor Econômico

SÃO PAULO ­ O pedido de recuperação judicial da BioÓleo ­ joint venture da Petrobras e da 2H Participações, com sede em Feira de Santana, interior da Bahia ­ foi deferido hoje pelo juiz Adriano Vieira de Almeida, da 4ª Vara Cível da Comarca de Feira de Santana, na Bahia

. A consultoria EXM Partners é a responsável pelo elaboração do plano de recuperação judicial da BioÓleo. Hoje, a BioÓleo tem capacidade para produzir 74 mil toneladas de óleo por ano e tem área industrial de cerca de 210 mil metros quadrados.

A empresa, que tem como sócios a 2H Participações e a Petrobras Biocombustível, tinha como proposta em 2010 ser a principal fornecedora de óleo vegetal refinado para a Fábrica da Petrobras em Candeias (BA), o que exigiu fortes investimentos iniciais para aumentar a produção. Segundo a EXM Partners, a com a redução de oferta de mamona, a BioÓleo viu sua produção cair para aproximadamente 10 mil toneladas de óleo por ano, o que acabou gerando uma dívida acumulada no valor de R$ 44 milhões, sendo 85% para bancos e 15% para outros fornecedores.

O plano de recuperação judicial da empresa tem de ser apresentado no prazo de 60 dias aos credores.

Por Campo Grande News

A Justiça tenta amanhã (26), pela terceira vez em 50 dias, aprovar o plano de recuperação judicial da Usina São Fernando, de propriedade dos filhos do pecuarista José Carlos Bumlai, amigo do ex-presidente Lula e um dos condenados na Operação Lava Jato.

Enfrentando vários pedidos de falência, a indústria, instalada em Dourados, a 233 km de Campo Grande, acumula pelo menos R$ 1,5 bilhão em dívidas, principalmente com bancos e fornecedores.

Após ser suspensa pelo TJ/MS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul) no ano passado, a assembleia foi marcada para o dia 9 de março deste ano, mas faltou quórum e a reunião foi transferida para o dia 16 do mesmo mês. Entretanto, a assembleia não chegou a ser finalizada e terá continuidade amanhã.

A administradora judicial Vinicius Coutinho Consultoria e Perícia S/A Ltda., que tem sede em Campo Grande, informou a usina apresentou proposta de modificação do plano de recuperação judicial que tramita na 5ª Vara Cível de Dourados. Por isso pediu a suspensão da assembleia para que os credores tivessem tempo de analisar as mudanças.

Há quatro anos – O processo de recuperação judicial da São Fernando começou em abril de 2013. São centenas de credores, entre eles empresas e produtores locais de Dourados, fornecedores e cooperativas de outros estados e bancos, como o BNDES, Banco do Brasil, Bradesco, Pine e Bonsucesso.

Em fevereiro deste ano, a gestora americana de fundos Amerra fez uma nova proposta para comprar a São Fernando. Ao BNDES, um dos principais credores da indústria e autor de um dos pedidos de falência, a Amerra propôs quitar a dívida que a usina tem com o banco e parcelar o restante a pagar, quase R$ 270 milhões, por 17 anos, corrigido pela TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo TJLP).

A proposta inclui ainda o pagamento de aproximadamente R$ 50 milhões que a usina tem em atraso com o Banco do Brasil e mais R$ 50 milhões referente à primeira parcela renegociada com os demais credores. A Amerra também se compromete a investir R$ 50 milhões para plantar cana-de-açúcar no primeiro ano.

Por Jornal Opção

No ano em que completa meio século de atividades, a Irmãos Soares entrou com pedido de recuperação judicial. Conforme a empresa, a medida foi tomada no último dia 20 de abril devido à prolongada crise econômica e a elevada taxa de juros praticada pelos mercados nos últimos anos.

“Para preservar a sua operação em mais de 14 lojas e assegurar a justa ocupação para mais de 500 funcionários, decidiu buscar a proteção legal para reestruturar seus negócios e assegurar a todos – funcionários, clientes e fornecedores, a continuidade de uma empresa que está se renovando dia a dia, e se tornará ainda mais dinâmica e empreendedora”, diz em nota.

Fundada em dezembro de 1967 por Odilon José Soares e Elon José Soares, a Irmão Soares é hoje uma das maiores redes de materiais de construção do Centro-Oeste, com várias lojas distribuídas no Estado de Goiás e também em Minas Gerais.

Por Valor Econômico

Depois de dois meses em que a arrecadação tributária apresentou tendência de melhora marginal, a receita voltou a recuar em março, de acordo com informações obtidas até 10 de abril no Tesouro Gerencial, sistema de registro de despesas e receitas do governo federal. No mês passado, a receita administrada caiu 2% em relação ao mesmo mês de 2016, já descontada a inflação do período. A receita total recuou 1,5%, na mesma comparação, para R$ 98,2 bilhões.

Os dados, antecipados ao Valor, são parte de boletim feito pelos economistas José Roberto Afonso, Vilma da Conceição Pinto e José Ricardo Guimarães Júnior, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV). O objetivo do estudo é antecipar a tendência da arrecadação divulgada pela Receita Federal, ainda que diferenças metodológicas, como meios e prazos de apuração, produzam certa divergência entre as duas fontes. A Receita divulga os dados oficiais nos próximos dias.

Para Vilma, o comportamento da arrecadação em março surpreendeu negativamente porque nos últimos meses a trajetória observada era de melhora gradual da receita, ainda que sobre uma base de comparação muito deprimida. “Desde dezembro temos visto um mês melhor do que o outro. Em março, esperávamos alta real da arrecadação, mas tivemos reversão dessa tendência. O número foi até pior do que janeiro”, observa ela.

De fato, a mediana das projeções contidas no Boletim Prisma de março apontava para arrecadação de R$ 100,9 bilhões no mês, o que traria crescimento real da receita pelo terceiro mês seguido.

A economista avalia que a principal surpresa negativa no mês passado foi a arrecadação de Imposto de Renda sobre Pessoa Jurídica (IRPJ) e Contribuição Social sobre Lucro Líquido (CSLL), justamente os dois tributos que puxaram a receita no primeiro bimestre. Para Vilma, é possível que as quedas nessas duas rubricas em março tenham sido efeito da antecipação de recolhimento da declaração de ajuste anual para o primeiro bimestre, já que no acumulado do ano os dois tributos continuam a apresentar aumento. “Essa antecipação de pagamentos pode ter levado a uma mudança na base de comparação”, afirma.

Mesmo assim, diz Vilma, os tributos relacionados ao consumo ainda vão mal, com queda de 9% no Imposto de Importação e de 2,7% da Cofins, por exemplo.

Com essa evolução predominantemente negativa, a receita administrada caiu 2% em março, em relação ao mesmo mês de 2016. A arrecadação total só teve uma queda um pouco menor, de 1,5% no mesmo período, por causa do comportamento de royalties e participações especiais, que vêm registrando números positivos por causa da valorização do preço do petróleo.

Apesar do mês negativo para o recolhimento de tributos pelo governo, Vilma pondera que este pode ter sido apenas um “soluço”, já que em 12 meses a tendência ainda é de alguma recuperação.

Sem considerar a receita com a repatriação de recursos no ano passado, a arrecadação acumula retração de 3,9%, em termos reais, na média móvel de 12 meses até março, um número bem menos negativo do que a forte queda de 7% registrada em meados do ano passado, na mesma comparação.

Nos cálculos do Ibre, se a tendência de modesta recuperação for mantida nos próximos meses, aproximadamente em junho de 2017 a receita pode voltar a mostrar crescimento em 12 meses. “Mas ainda não temos motivos para comemorar”, apontam os economistas do Ibre no boletim, já que a base de comparação é muito ruim. Em relação a 2012, por exemplo, a arrecadação total está 14,2% menor, enquanto o recolhimento de IRPJ e CSLL caiu 32,9%.

Por Valor Econômico

Tão fortes quanto os impactos da atual crise para a indústria são seus efeitos sobre os trabalhadores e as pequenas e médias cidades. Essa é uma face da recessão que coloca números, estatísticas, siglas e conceitos em segundo plano. O dia a dia da crise no mundo real é feito de fábricas fechadas, trabalhadores em casa, sistema de saúde pública lotado, comércio vazio, aumento da violência e prefeituras quebradas.

A recessão iniciada no terceiro trimestre de 2014 já pegou a indústria fragilizada. “Se a crise dos anos 80 significou a estagnação, a atual provocou retrocesso”, afirma David Kupfer, diretor do Instituto de Economia da UFRJ e pesquisador do Grupo de Indústria e Competitividade (GIC­IE/URFJ).

Às vésperas de completar três anos de queda trimestral seguida do PIB, o número de desempregados hoje é o dobro do que era em 2014. A participação da indústria no valor adicionado à economia é a menor da série histórica desde 1947 e chegou a 11,7% em 2016. Houve um esgarçamento natural do chamado tecido industrial ­ as relações na cadeia produtiva.

Esse cenário praticamente esgotou todos os mecanismos que compõem a rede de proteção social, que adiou para muitos a sensação de que a situação se agravava. “O seguro desemprego e os programas de redução de jornada de trabalho, por exemplo, já estão esgotados. Não há uma rede de proteção suficiente que sobreviva a uma recessão tão longa”, avalia Nelson Marconi, coordenador da Escola de Economia da FGV.

Então, o que acontece quando uma fábrica silencia? As consequências vão muito além das estatísticas de desempregados. Quando as máquinas são desligadas, também para o comércio, cai a circulação de mercadorias, a arrecadação de impostos diminui e o serviços públicos ficam sobrecarregados. A reportagem do Valor visitou cinco cidades de tamanhos diferentes em cinco Estados. E ouviu histórias que ajudam a definir essa resposta.

Encontrou pessoas como os Moraes, que além do sobrenome em comum vivenciam os efeitos da crise. Prestes a concluir o curso superior a distância de serviço social, Leonardo Moraes perdeu, em março, o emprego de ajudante de operações na fábrica de cimentos da Nassau, em Fronteiras (PI). Aos 27 anos, ele ainda espera em casa, no povoado de Pau Ferro, receber seus direitos. A quase três mil quilômetros dessa região castigada pela seca há seis anos, a empresária Romanilda de Moraes perdeu 40% da clientela que frequentava sua loja Moda & Cia, depois que a calçadista Via Uno fechou a fábrica em Novo Hamburgo (RS). O crescimento da violência na região obriga a empresária a trabalhar com a porta trancada o dia todo.

Para a professora de economia da Universidade Feevale em Novo Hamburgo, Lisiane Fonseca da Silva, o fechamento de postos de trabalho em todos os setores está ligado à deterioração dos indicadores de segurança pública. “Infelizmente dá para relacionar”, diz. Segundo a professora, quando a mão de obra de menor qualificação não consegue se recolocar no mercado legal, pode buscar outras “brechas”, desde pequenos furtos até o tráfico de drogas.

Os recentes sinais de um ensaio de retomada da economia servem, sem dúvida, de alento. Mas ainda não são fortes o suficiente para reverter a atual situação. “Temos uma capacidade ociosa muito grande. O empresário não vai voltar a investir enquanto a atual capacidade não for ocupada”, afirma Kupfer.

Da gigante Usiminas em Cubatão, passando pela Neobus em Três Rios até as pequenas moveleiras de Ubá, nada dá sinais de que as maquinas serão ligadas. As fábricas devem continuar caladas por algum tempo ainda. (Com Marina Falcão, de Fronteira, e Sergio Ruck Bueno, de Novo Hamburgo)

Por Valor Econômico

O que acontece quando as máquinas de uma grande fábrica são desligadas? A reportagem do Valor visitou cinco cidades de tamanhos diferentes em cinco Estados e ouviu histórias como a de Leonardo Moraes, que em março perdeu o emprego de ajudante de operações na fábrica de cimentos da Nassau, em Fronteiras, no Piauí. Ele ainda espera, em casa, receber seus direitos.

A quase três mil quilômetros dali, a empresária Romanilda de Moraes perdeu 40% da clientela que frequentava sua loja depois que a calçadista Via Uno fechou em Novo Hamburgo (RS). A lista das empresas locais que baixaram as portas nos últimos cinco anos ainda inclui a Calçados Jacob, Dilly Sports e Arteflex. Entre 2013 e 2016, a cidade perdeu 2,5 mil postos de trabalho no setor.

O fechamento da área primária da Usiminas, em Cubatão (SP), provocou uma reação em cadeia. Cimenteiras que dependiam dos resíduos da usina suspenderam a fabricação, empresas de fretamento de ônibus diminuíram as frotas, serviços de alimentação foram reduzidos e o comércio perdeu vendas. Em dois anos, 10 mil vagas foram fechadas.

Para Ubá, capital da indústria de móveis de Minas, o fechamento de empresas também foi um baque. Eram 17 mil empregos diretos no setor há três anos e hoje são 13,5 mil. Em Três Rios (RJ), a Neobus, do grupo Marcopolo, teve seu melhor momento em 2014, com 495 trabalhadores. Quando fechou, no ano passado, eram 280 empregados na barulhenta linha de montagem. Agora, apenas o silêncio, três pessoas e um cachorro rondam o local.

Por Extra

RIO – Sem fôlego para pagar compromissos financeiros, a Máquina de Vendas, que resultou do casamento entre a Ricardo Eletro e a Insinuante, negocia diretamente com três grandes bancos — Itaú Unibanco, Bradesco e Santander — a reestruturação de sua dívida. Os débitos com esses credores já equivalem a 51% do patrimônio do terceiro maior grupo varejista no segmento de eletroeletrônicos e eletrodomésticos, afirma uma fonte próxima às negociações. E levanta questionamentos sobre o risco de perda do controle da operação para as instituições financeiras.

— Não há interesse dos bancos em tomar o controle da companhia. O que vem sendo feito é uma reestruturação da dívida, com reduções das taxas de juros, discussões sobre como melhorar a liquidez, subordinar dívidas a outras empresas ligadas ao grupo. É uma forma dos bancos receberem parte do que é devido e, se lá na frente a Máquina voltar a ser sadia, até reaver valores hoje já vistos como perdas — explicou essa fonte.

A companhia, avaliam especialistas, estaria adiando ou à beira de um inevitável pedido de recuperação judicial.

— Com o agravamento da crise econômica, os grandes bancos passaram a negociar diretamente com os devedores, principalmente em casos em que o passivo está muito concentrado em poucas instituições financeiras — explica a advogada Juliana Bumachar, especialista em recuperação de empresas.

Interessa aos bancos, continua ela, negociar antes de a empresa em dificuldades pedir proteção à Justiça:

— Na recuperação judicial, os grandes credores terão de entrar na corrida para ver quem negocia melhor e na frente, para tentar receber. Então, o melhor é negociar antes — diz ela.

TERCEIRA RODADA DE NEGOCIAÇÕES

A reengenharia das finanças da Máquina de Vendas ganhou força em 2016, baseada em redução de despesas, fechamento de lojas e renegociação de dívida. A companhia encara, atualmente, a terceira rodada de renegociação de dívidas com os grandes bancos credores.

— É um problema muito grande. Houve uma primeira negociação com foco nas dívidas de longo prazo. Na segunda, já foi preciso refinanciar, além do longo prazo, também as linhas de capital de giro. E isso está acontecendo novamente — diz Ana Paula Tozzi, da AGR Consultores.

Um dos grandes impactos no caixa veio das dificuldades em cumprir os pagamentos previstos pela emissão de debêntures no valor de R$ 874 milhões feita em 2014. A solução foi encontrada em uma nova operação, que praticamente dobra o valor da primeira emissão, para pagar dívidas e rolar os débitos para adiante, conta Ana Paula.

Em 2015, as vendas da companhia encolheram 10%. O Ebitda, indicador de caixa, despencou de R$ 461 milhões em 2014 para R$ 80 milhões no ano seguinte. Com isso, os riscos que acompanham o alongamento da dívida podem comprometer o futuro do negócio, avalia Luís Alberto Paiva, da Corporate Consulting, também de recuperação de empresas.

— Essas rolagens de dívidas por até dez anos com redução de taxa de juro têm um custo que abala o resultado da companhia no longo prazo. Mas os bancos vão negociar porque não podem ter um calote na casa da centena de milhões em seus balanços.

O pedido de recuperação poderia estar sendo adiado à sombra de uma possibilidade de venda da companhia, explica Paiva. Mas também isso deveria ocorrer sob proteção judicial, diz ele:

— Só a recuperação permitiria ajustar a estrutura financeira da empresa ao tamanho da operação e da receita. E a companhia poderia criar uma unidade produtiva independente (UPI), com o que tem de melhor. E ceder essa unidade como parte do pagamento a esses credores. Essa UPI poderia ser vendida, com a vantagem de que o comprador não herdaria os passivos.

COM RECESSÃO, DIFICULDADES AUMENTARAM

As dificuldades do grupo foram agravadas pela recessão. As vendas do comércio varejista encolheram 6,2% em 2016, segundo o IBGE. Foi o pior resultado na série iniciada em 2001, com recuo de 12,6% no segmento de móveis e eletrodomésticos.

— Os lojistas do segmento dizem que venderam acima do esperado em janeiro, pela queima de estoque de Natal, e março, efeito do saque das contas inativas do FGTS. Mas a retomada só é esperada para o segundo semestre, quando o mercado de trabalho deve melhorar — diz Maria Paula Cantusio, analista do segmento de varejo da BB Investimentos.

Nesse cenário, vêm ocorrendo mudanças no setor:

— O Magazine Luiza ganhando mercado desde 2014, com expansão em vendas pela internet e nas operações regionais. A Via Varejo (que reúne Ponto Frio e Casas Bahia) vem atraindo investidores interessados em comprar a fatia do Grupo Pão de Açúcar na empresa. Esses investidores poderiam, eventualmente, se interessar pela Máquina de Vendas — diz Maria Paula, que destaca que o grupo da Ricardo Eletro sofre com a ampla rede de lojas físicas, que tem custo fixo alto.

A Máquina de Vendas foi criada a partir da união de Insinuante e Ricardo Eletro em 2010. Entre o surgimento da companhia e 2012, o grupo adquiriu outras três varejistas: City Lar, Eletro Shopping e Salfer. Desde o ano passado, colocou todas as marcas sob a bandeira Ricardo Eletro. Atualmente, tem 800 lojas em 23 estados, além do Distrito Federal, tendo fechado mais de uma centena ao longo de 2016, segundo fontes de mercado. Ao todo, são mais de 17 mil funcionários diretos.

A operação do terceiro maior grupo do segmento — atrás de Via Varejo e Magazine Luiza — está de pé, mas reflete a fragilidade do caixa. O portfólio de produtos e a composição de preços dos itens que a companhia vendeu no último Natal, por exemplo, destaca Ana Paula, já refletiam o ciclo de endividamento crescente:

— Eles entraram no Natal com estoque de produtos menos atualizados, que foram repassados a eles pela indústria com preços mais competitivos e que eles venderam com preços ainda menores.

Procurados, Bradesco, Santander e Itaú Unibanco não comentaram. A Máquina de Vendas não respondeu.